Joesley Batista, um dos controladores da JBS, a maior processadora de carne do mundo, pediu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a eliminação da tarifa de 26% sobre a carne bovina brasileira em reunião no Salão Oval da Casa Branca, no dia 20 de agosto. O encontro é narrado em reportagem do The Wall Street Journal publicada nesta segunda-feira (31) e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo e pelo G1. Um dia depois da conversa, Trump anunciou nas redes sociais a ampliação temporária da entrada de carne importada sem tarifa, medida oficializada em decreto assinado dias depois.
Segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pelo jornal, os dois discutiram como uma oferta maior de carne brasileira ajudaria a derrubar os preços no varejo americano caso a tarifa acabasse. Trump afirmou que os produtos importados seriam vendidos com desconto de 25% em relação aos preços de mercado. O WSJ escreveu não ter conseguido apurar quem promoveu o encontro. No mesmo dia 21, o governo brasileiro informou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com Trump por 80 minutos, sobre tarifas, combate ao crime organizado e conflitos mundiais.
Por que a carne pesa sobre Trump
A alta do preço da carne bovina é um problema político para Trump, que prometeu reduzir o custo de vida nos Estados Unidos. A liberação de importações enfureceu pecuaristas americanos e atraiu críticas de parlamentares republicanos, sobretudo os que disputam eleições apertadas em áreas rurais nas eleições de meio de mandato. A National Cattlemen's Beef Association, principal entidade do setor, disse que a intervenção do governo só prejudicará os produtores e dificultará a estabilidade de longo prazo da indústria.
Do frigorífico ao mercado americano
A reportagem liga o episódio à posição da JBS nos Estados Unidos. A Pilgrim's Pride, segunda maior processadora de frango do país e controlada majoritariamente pela JBS, doou US$ 5 milhões para a posse de Trump e foi a maior doadora do evento, segundo o jornal. O Departamento de Justiça investiga as quatro maiores processadoras de carne americanas, entre elas a JBS, por supostas práticas anticompetitivas. As companhias negam irregularidades e registram perdas: Tyson Foods e JBS fecharam unidades após perderem centenas de milhões de dólares no processamento de carne bovina, com o gado americano cada vez mais caro.
Para a JBS, importar mais produto brasileiro ampliaria sua fatia no mercado americano. O Brasil enviou cerca de US$ 1,5 bilhão em carne bovina aos Estados Unidos no primeiro semestre deste ano, alta de 10% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Departamento de Agricultura americano. A empresa, que emprega cerca de 280 mil pessoas em mais de 20 países e listou ações na Bolsa de Nova York em 2025, afirmou ao jornal: "tem um longo histórico de participação no processo cívico e de criação de oportunidades para oferecer alimentos seguros e acessíveis às famílias americanas".
O decreto espalha seus efeitos pelos dois lados da cadeia. No Brasil, frigoríficos e pecuaristas ganham acesso mais amplo ao maior mercado consumidor do mundo, hoje sujeito à tarifa de 26%. Nos Estados Unidos, consumidores podem ver a carne baratear, como promete Trump, enquanto pecuaristas locais temem pressão sobre os preços do gado, receio já expresso nas críticas da entidade do setor à medida.