O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu na noite de terça-feira (8) o comando de uma operação para conter a crise na cúpula do Judiciário. Segundo a Folha de S.Paulo, assessores avaliam que uma disputa sem fim no STF (Supremo Tribunal Federal) prejudica seriamente a campanha do petista pela reeleição, e Lula concluiu que é urgente recompor uma maioria na corte capaz de isolar o ministro André Mendonça, relator dos inquéritos do Master e do INSS.
Sob a orientação do presidente, relata o jornal, ministros do governo, magistrados da ala próxima ao Planalto e parlamentares se articularam nas últimas horas para reagir à decisão de Mendonça que, na terça, afastou do cargo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Na manhã de quarta-feira (9), o ministro Flávio Dino determinou a reintegração dos dois delegados. Interlocutores ouvidos pela Folha dizem que muitos dos argumentos usados por Dino na decisão são compartilhados por Lula.
Ofensiva contra o relator
O diagnóstico nos bastidores, de acordo com o jornal, é de que fracassaram as tentativas de diálogo com Mendonça em busca de neutralidade do tribunal na eleição. O advogado-geral da União, Jorge Messias, vinha atuando como ponte com o ministro. Aliados convenceram Lula de que Mendonça, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, atua para prejudicar sua candidatura à reeleição e blindar o senador Flávio Bolsonaro (PL), apontado pela reportagem como seu principal adversário. O presidente deu aval a uma ofensiva contra o relator.
Segundo pessoas a par das tratativas citadas pela Folha, partiu da articulação de Lula com aliados a decisão de Andrei protocolar um pedido de reabilitação em investigação sob a relatoria de Dino, que apura suspeitas de irregularidades em emendas ligadas ao filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao examinar pedido de Andrei na quarta, Dino escreveu que a nomeação e a exoneração do diretor-geral da PF são atribuição privativa do presidente da República e se perguntou, na decisão, se "uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam".
Ataque público
A ofensiva também foi ao público. Em publicação na rede social X nesta quarta, Lula criticou "vazamentos seletivos" com impacto na disputa eleitoral e defendeu o fim dos sigilos das investigações do caso Master. "O povo brasileiro precisa de explicações e medidas imediatas para enfrentar a crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário", escreveu o presidente, segundo o G1.
"É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade."
A crise ganhou força quando Mendonça retirou o sigilo de relatórios da PF que expuseram trocas de mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no esquema que, segundo a Polícia Federal, teria inflado artificialmente o valor do extinto Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, que pediu ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin, a abertura de apuração sobre a atuação do relator. O próximo passo está com Fachin, segundo o G1: ele cancelou a sessão plenária de quarta, tinha previsão de receber Moraes ainda no dia e fixou prazo para as partes se manifestarem sobre os relatórios de inteligência antes de levar o tema ao plenário do tribunal.