Até 37,5%. É a sobretaxa máxima que os Estados Unidos cobram hoje sobre produtos brasileiros, e foi o tema central da entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à CNN, nesta segunda-feira (21), em Nova York. Na conversa com a jornalista Christiane Amanpour, o petista disse que o americano Donald Trump "age como um imperador" e que avalia como aplicar a reciprocidade, caso a negociação do tarifaço não avance.
O número pesa no bolso antes de chegar à mesa. Para cada US$ 1.000 em mercadorias vendidas aos EUA, até US$ 375 ficam retidos como imposto na fronteira americana, o que encarece o produto diante de concorrentes de outros países. Fábricas e fazendas que exportam sentem o efeito em encomendas, produção e empregos.
Lula voltou a uma crítica que já fez em outras viagens. Segundo o G1, ele classificou a postura de Trump como a "lei do mais forte"; para a Folha de S.Paulo, disse que o republicano "tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não direito de governar outros países". À CNN, chamou o unilateralismo de "muito perigoso" e defendeu o multilateralismo, com comércio equilibrado entre países.
"Ele age como imperador. É um jeito de governar que eu não concordo. Quando você diz: 'Eu sou forte, eu sou o maior, eu sou o mais rico, eu posso tudo e o restante tem que obedecer'... É a chamada lei do mais forte, eu não concordo com esse tipo de lei."
Apesar da crítica, Lula disse que vai esgotar a negociação antes de qualquer represália. "Eu não pretendo entrar em guerra tarifária nem com os EUA e nem com ninguém, eu quero negociar", declarou, lembrando que aprendeu a negociar na vida sindical. Ele lembrou ainda que o Brasil tem déficit na balança comercial com os EUA, ou seja, compra mais dos americanos do que lhes vende, e que por isso considera as tarifas injustas.
Entenda
O tarifaço americano soma duas cobranças: uma taxa de 25% ancorada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, motivada por disputas envolvendo o Pix, a regulação de plataformas digitais e o etanol, e mais 12,5% sob a alegação de falhas na fiscalização contra o trabalho forçado. A Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso, autoriza o governo brasileiro a sobretaxar produtos americanos em resposta a barreiras consideradas injustas. O Brasil já a acionou formalmente e abriu consultas na OMC (Organização Mundial do Comércio), mas nenhuma retaliação prática foi aplicada até agora.
Na prática, carne bovina, café e celulose entraram na lista de isenções americanas, enquanto etanol e maquinário agrícola passaram a ser atingidos diretamente. Lula disse que o governo precisa definir quais produtos de interesse dos EUA entrariam na Lei de Reciprocidade. "Caso não seja possível porque os EUA não querem, a gente vai ter que tomar atitudes", afirmou.
Lula está em Nova York para o discurso de abertura do Brasil na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22), e não há encontro bilateral confirmado com Trump. Em ano de eleição presidencial, com o petista candidato à reeleição, ele também disse à CNN que Trump afirmou a interlocutores que não interferirá no pleito brasileiro, segundo o InfoMoney. E classificou como "grave" a ação militar americana na Venezuela, que capturou Nicolás Maduro em janeiro, defendendo eleições no país vizinho.