O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu diversos apelos para se pronunciar sobre o escândalo que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. A informação é da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, desta quarta-feira (2). No Planalto, contudo, Lula é aconselhado a manter distância e a não comentar o caso, segundo reportagem da CNN Brasil.
A pressão cresceu depois que o ministro André Mendonça, relator do processo do Banco Master no STF, suspendeu na terça-feira (1º) o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal) que revela as ligações de Moraes com Vorcaro, controlador do extinto banco e preso no âmbito do escândalo, segundo a Folha. O documento reúne mensagens atribuídas a contatos entre Vorcaro e um número vinculado ao ministro, segundo o G1.
Por que o silêncio é difícil
O relatório não envolve Lula diretamente nos fatos investigados. O problema, segundo a analista de política da CNN Jussara Soares, é de imagem: os documentos periciados pela PF mostram uma relação "bem pouco republicana" entre os dois, e aliados do presidente reconhecem que a associação entre Lula e Moraes já está consolidada na percepção pública. Dois episódios pesam. Moraes foi o relator do inquérito da trama golpista que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, e um encontro entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ocorreu na casa do ministro.
Ainda que esteja sendo aconselhado a se manter distante neste momento de temperatura elevada, há reconhecimento interno no governo de que isso é "bastante difícil", segundo a analista. "Por mais que o presidente Lula esteja sendo aconselhado a tomar uma distância, há uma preocupação de buscar se distanciar deste caso", afirmou Jussara Soares.
A oposição aperta pelo lado oposto. Na terça (1º), parlamentares reforçaram os pedidos de impeachment contra Moraes, e Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na corrida presidencial, e aliados pediram a renúncia do ministro, segundo a CNN Brasil. O PL quer eleger uma bancada de senadores de direita disposta a avançar com o impeachment de ministros do STF a partir de 2027, já que a abertura do processo depende de o presidente do Senado pautá-lo.
No campo governista, a avaliação é de que o embate entre Mendonça e Moraes é uma crise interna do Poder Judiciário e não cabe ao presidente se envolver, segundo dirigentes petistas ouvidos pela CNN. Eles também lembram que Mendonça é relator de investigações que envolvem Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. O partido mantém o discurso de que as investigações precisam seguir "doa a quem doer", e o comando da campanha de Lula usará a quebra de sigilo sobre Moraes para cobrar que Mendonça faça o mesmo com o inquérito sobre o financiamento do filme "Dark Horse", para o qual Flávio enviou a Vorcaro um áudio pedindo dinheiro, segundo a emissora.
O que vem a seguir
Enquanto Lula calibra o silêncio, o presidente do STF, Edson Fachin, começou nesta terça (1º) consultas internas com os demais ministros sobre os desdobramentos da crise e não indicou se o caso vai ao plenário, segundo o G1. Em evento na Corte nesta quarta (2), ele prometeu uma resposta.
"Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias."
No governo, a avaliação, segundo a CNN, é de que o episódio contamina inevitavelmente o processo eleitoral e reforça a bandeira da oposição de críticas ao Supremo. "Há impacto. A gente não sabe ainda se isso vai ser definidor da eleição, mas que tem impacto e isso preocupa muito a campanha do presidente Lula", disse Jussara Soares.