A maioria das doações mais altas feitas por pessoas físicas diretamente à campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) veio de quem ocupa cargo no governo federal ou em empresas estatais. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo publicado neste domingo (27), 57 das 76 pessoas que doaram ao menos R$ 2.500 de forma direta, sem intermediação de financiamento coletivo, têm posição na administração ou em estatais.
As contribuições desses 57 doadores somam R$ 425 mil. Desse total, R$ 355 mil entraram por transferência bancária e R$ 70 mil foram estimados em prestação de serviços. Os dados foram extraídos na quarta-feira (23) da plataforma Divulgacand, mantida pela Justiça Eleitoral. O valor é pequeno diante dos R$ 66,9 milhões já recebidos pela campanha. Desse montante, R$ 65,2 milhões vieram dos fundos eleitoral e partidário, repassados pelo PT. O financiamento coletivo somou R$ 283 mil.
Quem são os doadores
A reportagem da Folha identificou os cargos cruzando o CPF de cada doador no portal da Transparência e o nome nas páginas institucionais das estatais. Os doadores aparecem em vários escalões. Há ministros, secretários, diretores, assessores e dirigentes de empresas estatais. Oito dos 57 acumulam assentos em conselhos de estatais federais diferentes de seus locais de trabalho de origem, função que paga uma remuneração extra conhecida como jeton.
Levantamento do G1 com dados até 22 de setembro mostra o mesmo padrão. Entre os doadores registrados por Lula estão o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, e Marco Aurélio de Carvalho, um dos coordenadores da campanha. Até aquela data, a candidatura havia declarado R$ 1,4 milhão em doações de pessoas físicas. A maior veio do empresário Erasmo Carlos Battistella, CEO da Be8, maior produtora de biodiesel do país segundo dados da ANP citados pelo G1: R$ 500 mil. O mesmo empresário doou valor igual a Flávio Bolsonaro (PL). A lista inclui ainda doações em serviços, como os R$ 30 mil declarados pelo cantor gospel e pastor Kleber Lucas pela gravação de jingle e clipe.
As regras eleitorais
Segundo o G1, qualquer pessoa física pode doar a candidatos e partidos, desde que a contribuição seja identificada e rastreável. Márcio Nogueira, especialista em direito eleitoral e presidente da OAB de Rondônia ouvido pelo portal, explicou que as doações em dinheiro ficam limitadas a 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à eleição. Bens e serviços podem ser cedidos até o valor estimado de R$ 40 mil por pessoa.
Para Nogueira, as campanhas podem arrecadar até o dia da eleição. Depois disso, a captação só pode seguir para quitar despesas já realizadas e ainda não pagas. Os números da prestação de contas são parciais e mudam conforme as candidaturas registram novas receitas na Divulgacand. O primeiro turno da eleição presidencial está marcado para 4 de outubro, uma semana após a publicação do levantamento.