A pauta ambiental desapareceu da disputa presidencial de 2026, a menos de duas semanas do primeiro turno, em um ano de enchentes e ciclones no Sul e no Sudeste e de risco de seca extrema no Norte. A constatação é da Folha de S.Paulo, que analisou nesta segunda-feira (21) os programas de governo dos seis principais candidatos e concluiu que apenas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) traz propostas à altura do desafio climático.
Enquanto o tema não aparece nos palanques, os eleitores dizem querer vê-lo. Pesquisa Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima, coalizão da sociedade civil, ouviu 1.800 brasileiros de todas as regiões entre 17 e 20 de agosto: 91% consideram importante que os candidatos apresentem propostas de enfrentamento das mudanças climáticas, e para 62% o tema é muito importante, segundo reportagem do portal ((o))eco. Para 87%, o fenômeno já provoca secas, chuvas intensas e ondas de calor, e 79% defendem priorizá-lo mesmo que isso tenha custos econômicos.
País sob alerta climático
As urnas abrem em 4 de outubro, depois de meses de extremos. Na madrugada desta segunda-feira (21), um temporal despejou chuva forte, raios, granizo e rajadas de 106 km/h sobre Porto Alegre, segundo a MetSul Meteorologia, que mantinha alerta de vendavais destrutivos e risco de tornados no Rio Grande do Sul e estimava que uma frente fria e uma área de baixa pressão levassem chuva e temporais a 11 estados. A Folha destaca ainda o risco de uma nova seca extrema no Norte, e a MetSul registra condições de Super El Niño no Pacífico, com secas se agravando em vários países da América do Sul. No hemisfério norte, recordes de temperatura e enchentes como as do Nepal e do Tibete completam, segundo o jornal, o quadro de desregulação do clima.
Programas vagos e um voto verde sem candidato
Nos programas de governo, o vazio se repete. Segundo a Folha, para os outros cinco presidenciáveis, Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), a questão climática aparece de forma vaga, sem detalhes sobre pontos centrais como a redução das emissões de gases de efeito estufa. O jornal associa o silêncio à crise institucional em torno do Supremo Tribunal Federal (STF), que domina a cobertura da campanha.
"A pesquisa mostra que os brasileiros querem compromissos dos candidatos na agenda climática, mas infelizmente não é o que está acontecendo. A maioria dos presidenciáveis tem planos fracos ou inexistentes para o tema. Um dos candidatos, inclusive, é um negacionista convicto", diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, defende que a preocupação se converta em voto: "Em plena crise climática, não dá para aceitar negacionistas, declarados ou disfarçados, nem no Executivo, nem no Legislativo". Na academia, a professora de sociologia ambiental da Unicamp Leila da Costa Ferreira, ouvida pela Folha, lembra que pesquisas já demonstraram que os fenômenos extremos influenciam o voto. "As chuvas, os eventos extremos, etc., fazem parte do nosso cotidiano e isso tem que estar na boca dos candidatos a presidente do Brasil", diz.
Os sinais de demanda existem fora das pesquisas de opinião. Na Amazônia, análise da InfoAmazonia publicada na sexta-feira (18) cruzou dados eleitorais e demográficos e identificou que zonas eleitorais com mais evangélicos e brancos tendem a votar em candidatos contrários à agenda climática. No levantamento do Ipsos, as mudanças climáticas lideram entre os problemas ambientais, com 35% das menções, à frente da gestão de resíduos (21%) e da poluição do ar (15%), e 90% consideram muito importante que o poder público se dedique à proteção do meio ambiente. O que falta, na leitura de Ferreira, é um candidato que leve a questão ao cotidiano das pessoas.