No início de fevereiro de 2025, os dias de Neymar eram medidos pelo relógio do centro de treinamento do Santos, o clube que o revelou. Muito longe da Vila Belmiro, no WhatsApp do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, registrava-se outra movimentação: o lobista e publicitário Thiago Miranda organizava um encontro na casa do banqueiro com Neymar da Silva Santos, pai e empresário do jogador, e tratava, na mesma semana, de pendências com o senador Flávio Bolsonaro (PL).
As conversas foram apreendidas pela Polícia Federal no inquérito do caso Master e publicadas neste domingo (21) com exclusividade pela CartaCapital. Segundo a revista, elas indicam que Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, e o pai de Neymar pressionavam pela liberação de recursos negociados com Vorcaro. O registro decisivo é de 11 de fevereiro de 2025: Miranda escreve que precisa da ajuda do banqueiro para resolver "a questão do filme e do Santos", afirma que nada avançou e, na sequência, explica o motivo da pressão.
"Flavio B e Neypai estão me cobrando", escreveu Miranda. Vorcaro respondeu com um "Fala irmão" e, minutos depois, enviou ao publicitário uma mensagem de aniversário, encerrando ali o trecho reproduzido no relatório.
O negócio com o Santos
A conversa liga duas negociações distintas que envolviam o banqueiro naquele mês. Em 1º de fevereiro, Miranda procurou Vorcaro por causa de uma "demanda do Neymar" e contou que estivera com Flávio Bolsonaro no dia anterior. No dia 3, organizava uma reunião na casa do banqueiro com Neymar Pai e pessoas ligadas ao jogador, que poderia aparecer dependendo do horário em que deixasse o treinamento. Em 5 de fevereiro, cartas de intenção foram encaminhadas a Vorcaro; uma delas previa R$ 15 milhões pelo uso da marca do banco em três espaços do uniforme santista. No dia seguinte, Miranda relatou que Neymar Pai queria levar o filho para conversar pessoalmente com o banqueiro, e deixou os valores para serem tratados presencialmente.
O filme de 61 milhões
Em paralelo, avançavam as tratativas de Dark Horse, longa produzido para contar a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL) e que já havia recebido recursos de Vorcaro. Em maio de 2026, o Intercept Brasil revelou mensagens em que Flávio Bolsonaro cobrava do banqueiro pagamentos para a produção. Segundo a CartaCapital, os repasses ligados ao filme chegaram a 61 milhões de reais. O conteúdo das mensagens sobre o patrocínio ao Santos foi revelado inicialmente pelo site Fatos Online e confirmado pela revista junto ao relatório da PF que integra o inquérito do caso Master.
A própria reportagem faz ressalvas ao material. As mensagens não permitem concluir que Neymar ou seu pai tenham se reunido com Vorcaro, nem que as negociações tenham sido concluídas nos termos discutidos, e não especificam quanto cada parte cobrava. A CartaCapital procurou a NR Sports, empresa da família do jogador, e não teve retorno até a publicação. Já Miranda virou alvo da Operação Compliance Zero, deflagrada em maio deste ano: de acordo com a revista, ele é suspeito de ter articulado o "Projeto DV", voltado a contratar influenciadores para questionar a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master.
A publicação chega no meio da campanha presidencial, na qual Flávio Bolsonaro disputa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e no mesmo dia em que a CartaCapital divulgou outro trecho do mesmo material: em dezembro de 2024, Vorcaro teria pedido ao empresário Flávio Carneiro que não comentasse com ninguém um jantar com Jair e Flávio Bolsonaro. "Esse negócio acaba comigo", escreveu o banqueiro, que temia, segundo investigadores do caso Master, o vazamento do encontro. À época, o ex-presidente cumpria medidas cautelares no processo que apura a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
De volta a fevereiro de 2025, o que os autos registram é um clube treinando seu jogador mais famoso, uma reunião na casa de um banqueiro que pode ou não ter acontecido e um patrocínio de 15 milhões de reais que, até onde o expediente alcança, nunca estampou o uniforme do Santos. O que ficou no celular foi a urgência do intermediário e a calma do banqueiro: uma cobrança, um "Fala irmão" e um feliz aniversário.