Sobre o espelho d'água de um centro cultural em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, 750 esferas de aço inoxidável flutuam e se rearranjam ao sabor do vento, refletindo o céu de Minas Gerais e o rosto de cada visitante que se debruça sobre elas. A instalação Narcissus Garden, do Instituto Inhotim, é a obra mais conhecida no Brasil de Yayoi Kusama, a artista plástica japonesa que morreu em um hospital de Tóquio aos 97 anos.
A morte foi confirmada em um comunicado da empresa de Kusama, que informou que ela ocorreu no dia 14 de agosto, em um hospital de Tóquio, de acordo com a BBC. "Ela continuou pintando até seus últimos dias, nunca deixando de lado o pincel, e continuou explorando o amor eterno e a alma eterna", diz o texto, que promete levar adiante os desejos da artista e seguir levando esperança às pessoas de todo o mundo por meio da arte.
Da província japonesa à vanguarda de Nova York
Nascida em 1929 em Matsumoto, no centro do Japão, Kusama transformou em obra as alucinações que a acometiam desde a infância: campos de bolinhas coloridas que se repetem até o horizonte, abóboras gigantes, luzes que se multiplicam em direção ao infinito. Ainda jovem, rejeitou um casamento arranjado e mudou-se para Nova York, onde suas pinturas, esculturas e performances com nudez chocaram a família conservadora e provocaram alvoroço na cena artística dos anos 1960, dominada por homens, como recorda a BBC. Foi ali que nasceram, em 1965, as primeiras salas de espelhos infinitos, instalações em que espelhos e luzes criam espaços aparentemente sem fim.
O reconhecimento demorou. Segundo a BBC, Kusama viu contemporâneos como Andy Warhol, Claes Oldenburg e Lucas Samaras exporem em galerias mais prestigiadas trabalhos inspirados em suas ideias, e voltou ao Japão em 1973 desanimada. Quatro anos depois, internou-se voluntariamente em um hospital psiquiátrico, como relatou o Jornal Nacional: um ambiente protegido, escolhido entre instituições interessadas em arteterapia, no qual viveria e criaria pelo resto da vida, segundo a BBC. A consagração veio tarde. Em 1993, tornou-se a primeira artista japonesa a representar o país individualmente na Bienal de Veneza, 27 anos depois de ter aparecido sem convite no evento e espalhado 1,5 mil bolas espelhadas pelo chão. Aos 80 e 90 anos, virou um fenômeno global de público, com obras alcançando alguns dos preços mais altos já pagos por uma artista mulher.
Raízes fincadas em Minas Gerais
Com o Brasil, a artista construiu uma relação rara de permanência. Entre 2013 e 2014, a retrospectiva Yayoi Kusama: Obsessão Infinita, com cerca de cem obras, passou pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e pelos centros culturais do Banco do Brasil do Rio de Janeiro e de Brasília, reunindo mais de 1,7 milhão de visitantes, segundo o Jornal Nacional. Desde 2023, o Inhotim mantém uma galeria permanente dedicada a ela, com duas instalações imersivas: I'm Here, But Nothing, uma sala doméstica tomada por mais de 20 mil pontos fluorescentes, e Aftermath of Obliteration of Eternity, em que lanternas e espelhos criam a sensação de infinito. O acervo inclui ainda o Narcissus Garden, com suas 750 esferas flutuantes.
"A gente perdeu uma das artistas mais importantes da arte contemporânea, uma pessoa de uma trajetória muito longeva, que criou e deixou um legado. Então, acredito que o Inhotim hoje ter essas três obras, expostas em caráter permanente, é uma maneira também de fazer, deixar vivo esse legado", afirmou ao Jornal Nacional Lucas Menezes, curador do Inhotim.
Kusama dizia que faria o possível para levar o amor à humanidade e que, mesmo depois de sua morte, gostaria que as pessoas pudessem compreender o propósito de suas criações, sua esperança e sua paixão pela arte. Em Brumadinho, as esferas de aço seguem boiando sobre o espelho d'água, empurradas pelo vento, devolvendo a quem passa o próprio rosto refletido, como se o mundo, agora sem ela, continuasse a caber dentro de cada bolinha.