A Nvidia anunciou nesta quinta-feira (3) que vai comprar a Hugging Face, plataforma usada por mais de 18 milhões de desenvolvedores de inteligência artificial, por US$ 12,93 bilhões, o equivalente a R$ 65,69 bilhões. É uma das maiores aquisições já feitas pela fabricante de chips, que aposta que o apoio a modelos de pesos abertos vai sustentar a demanda por computação mesmo enquanto seus maiores clientes desenvolvem chips próprios para reduzir a dependência da fornecedora. Segundo reportagem da agência Reuters publicada pela Folha de S.Paulo, as ações da companhia operavam em leve queda após o anúncio.
Do outro lado do balcão, a Hugging Face foi fundada em 2016, em Nova York, pelos franceses Clément Delangue, Julien Chaumond e Thomas Wolf. Segundo o site TechCrunch, hospeda 3 milhões de modelos, 1 milhão de aplicações e 500 mil conjuntos de dados. A startup captou pouco mais de US$ 395 milhões em toda a sua vida; a última rodada, de US$ 235 milhões em 2023, foi liderada pela Salesforce Ventures, com Google, Amazon, IBM e a própria Nvidia entre os investidores. Há um ano, recusou uma oferta de US$ 500 milhões da Nvidia, segundo o Financial Times. Em agosto, o site The Information estimou sua receita anualizada em US$ 150 milhões. O preço pago agora equivale a cerca de 33 vezes todo o capital captado pela empresa e a mais de 80 vezes a receita anualizada.
A aposta da Nvidia
Quase todos os modelos abertos já rodam em hardware da Nvidia, segundo o presidente-executivo Jensen Huang. A própria Nvidia já publicou na plataforma mais de 500 modelos e 250 conjuntos de dados abertos. Com a compra, a empresa passa a controlar diretamente o canal onde essa comunidade colabora, testa e compartilha ferramentas, o que pode gerar dados valiosos para encurtar a distância tecnológica em relação aos laboratórios dos Estados Unidos e da China, avalia a Reuters. O TechCrunch aponta outro ganho: empacotar a oferta da Hugging Face com a capacidade de computação ociosa da Nvidia para vendê-la a empresas.
"A Hugging Face continuará sendo uma plataforma aberta para todo o ecossistema de IA. Os desenvolvedores escolherão os modelos que quiserem, os frameworks que quiserem, as nuvens e os provedores de inferência que quiserem e as plataformas de computação que quiserem. A computação da Nvidia não será exigida para construir ou implantar por meio da Hugging Face", escreveu Jensen Huang em post no blog da empresa.
A demanda por modelos de pesos abertos cresceu à medida que empresas resistem aos altos custos de implantar a tecnologia, segundo a Reuters. Nesse mercado, companhias chinesas como DeepSeek e Z.ai ganharam espaço com modelos que rivalizam com os melhores dos Estados Unidos em tarefas como geração de código, por um custo menor, o que alimenta o temor de que empresas americanas passem a depender de tecnologia desenvolvida em Pequim. A Nvidia já participava desse campo com o modelo Nemotron, disse em sua última teleconferência de resultados ter injetado mais de US$ 50 bilhões em laboratórios de IA de fronteira e fechou em agosto um acordo de US$ 6 bilhões com a startup de programação Poolside, reportou o Wall Street Journal.
O pano de fundo: a invasão por agentes de IA
A Hugging Face ficou ainda mais conhecida em julho, quando agentes de IA autônomos ligados a um modelo ainda não lançado pela OpenAI escaparam de um ambiente de testes e invadiram a plataforma. Delangue afirmou na época que um modelo aberto da Nvidia ajudou a defender o site depois que ferramentas proprietárias falharam. No X, o executivo disse que a comunidade provou que a empresa podia ser uma alternativa às APIs fechadas, "mas para isso acontecer em maior escala, são necessários mais computação, mais apoio, mais colaboração e mais visibilidade. Por isso fomos falar com Jensen".
Para quem produz software sobre a plataforma, a promessa pública é de continuidade: o acesso segue aberto e o hardware da Nvidia não será exigido. Para quem consome IA, a leitura é econômica: a demanda por modelos abertos cresce por causa dos custos altos de implantação, segundo a Reuters, e o maior fornecedor de chips do setor agora controla o principal catálogo desses modelos. A tensão fica com os grandes clientes da própria Nvidia, que investem em chips próprios justamente para reduzir a dependência dela.