R$ 1,87 bilhão. É quanto 18 fundos de pensão de servidores públicos aplicaram em letras financeiras do Banco Master, dinheiro que deveria bancar aposentadorias no futuro. Documentos da Polícia Federal tornados públicos na quinta-feira (10) mostram que o dono do banco, Daniel Vorcaro, mantinha um grupo de WhatsApp com os dois chefes do departamento do Banco Central responsável por fiscalizar sua instituição, e que chegou a pedir a um deles ajuda contra uma mudança de regra que ameaçava essas vendas.
O grupo, chamado "Master", foi criado em 2 de outubro de 2025 por Belline Santana, então chefe do Desup, o Departamento de Supervisão Bancária, a área do Banco Central que fiscaliza os bancos do país. "Boa tarde. Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução", escreveu Belline, segundo imagem de conversa reproduzida no documento da PF. O terceiro integrante era Paulo Sérgio Neves de Souza, à época chefe-adjunto do Desup e ex-diretor de Fiscalização da autarquia.
Na avaliação dos investigadores, os dois servidores, hoje fora dos cargos, se comportavam em várias ocasiões como "empregados" do banqueiro e recebiam vantagens em contrapartida. A peça foi assinada em 27 de fevereiro de 2026 e interpreta mensagens extraídas do celular de Vorcaro junto a documentos do próprio BC. Os arquivos foram liberados depois que o ministro André Mendonça, do STF, retirou o sigilo dos procedimentos ligados ao Master; segundo a Folha, a decisão atendeu a pedido do presidente da corte, Edson Fachin.
Minutas revisadas por quem devia fiscalizar
Em 27 de outubro de 2025, Vorcaro enviou ao grupo a minuta de um ofício endereçado ao próprio Desup, o departamento comandado por seus interlocutores. "Segue minuta para avaliação", escreveu; após uma chamada de voz de Belline, mandou nova versão com o pedido "Por favor, vejam se atende", relata a BBC News Brasil.
Em 25 de abril de 2025, Paulo Sérgio revisou a resposta do Master a um termo de comparecimento do BC. Entre as sugestões, trocar "captação de receitas" por "captação de recursos" e corrigir uma data. Ao final, escreveu: "Importante protocolar rapidamente".
Segundo a CNN Brasil, em 13 de outubro de 2025 Vorcaro cogitou no grupo que o Desup retirasse restrições à compra de carteiras de consignado pelo BRB, o Banco de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal. Paulo Sérgio avaliou a decisão como difícil, por ser tema da Procuradoria-Geral do BC, mas sugeriu elaborar um ofício alegando que todo o recebimento das carteiras estaria em poder do BRB.
A PF aponta ainda que Paulo Sérgio enviava tópicos para Vorcaro destacar em reuniões com a cúpula do BC e que, antes de um encontro com o então diretor de Fiscalização, Ailton Aquino, em fevereiro de 2024, alertou o banqueiro de que poderia ser questionado sobre suas relações com a gestora Reag e seu fundador, João Carlos Mansur.
Entenda: letras financeiras são títulos emitidos por bancos para captar dinheiro, sem a garantia do FGC, o fundo que reembolsa até R$ 250 mil por cliente quando uma instituição quebra. Fundos de pensão de servidores as compravam porque os títulos deveriam gerar rendimento para bancar aposentadorias e pensões no futuro.
Pedido contra mudança em regra de pensão
Em 24 de maio de 2024, Vorcaro pediu a Paulo Sérgio "ajuda do Bacen num tema", segundo a Folha. Ele dizia que grandes bancos atuavam na Previc, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar, para retirar da lista de investimentos institucionais as instituições classificadas como S3, faixa de bancos de pequeno porte, com ativos entre 0,1% e 1% do PIB. O Master se enquadrava no S3: detinha 0,57% do ativo total do sistema financeiro, menos de 1% do dinheiro movimentado pelos bancos do país.
Na avaliação do banquero, a mudança, somada a uma nova regra do FGC, prejudicaria os negócios. A Folha apurou que regimes de previdência de estados e municípios chegaram a concentrar até 20% do patrimônio em títulos sem garantia do Master, com 18 entidades aplicando R$ 1,87 bilhão. O maior valor partiu do Rioprevidência, fundo dos servidores do Rio: R$ 970 milhões, mais da metade do total, seguido do Amprev, do Amapá, com R$ 400 milhões.
O Master atravessava dificuldades quando, em 28 de março de 2025, o BRB anunciou acordo para comprar 58% do capital do banco. Segundo a PF, o BRB aportou cerca de R$ 12 bilhões na compra de carteiras de consignado de origem "altamente duvidosa", que se mostraram "inexistentes ou inadimplentes", mais de seis vezes o total aplicado pelos fundos de pensão.
As conclusões constam de uma representação da PF ao STF e ainda não foram julgadas pela corte. A Folha diz ter procurado os advogados dos dois ex-gestores do BC e não ter obtido retorno até a publicação.