A produção industrial brasileira sinalizou retração em agosto e a intenção de investimento das fábricas caiu ao menor patamar em seis anos, segundo a Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta segunda-feira (21). O índice de evolução da produção recuou 4,7 pontos na passagem de julho para agosto e fechou em 46,3 pontos, o pior resultado para o mês desde 2015, quando marcou 42,7 pontos durante a recessão econômica.
Como ficou abaixo da linha de 50 pontos, o indicador aponta queda da produção na comparação com o mês anterior, um movimento contrário ao usual de agosto. Nos últimos 11 anos, o índice esteve abaixo de 50 pontos no mês apenas duas vezes: em 2025 e agora em 2026, segundo a CNI. A sondagem ouviu 1.403 empresas entre 1º e 11 de setembro, sendo 587 pequenas, 487 médias e 329 grandes.
Investimento no menor nível desde a pandemia
O índice de intenção de investimento caiu 1,3 ponto em setembro, de 52,6 para 51,3 pontos, menor valor desde agosto de 2020, no auge da pandemia de covid-19. É a quarta queda seguida: desde maio, o indicador acumula recuo de 3,5 pontos. "A queda expressiva da intenção de investimento reflete um quadro que a gente já vem acompanhando de perda de ritmo da atividade industrial. Além disso, há um aumento das incertezas, o que também contribuiu para o resultado", avaliou o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo.
Os quatro indicadores de expectativa recuaram em setembro. A projeção de demanda por produtos caiu 1,4 ponto, para 51,2 pontos, e a de compra de insumos e matérias-primas recuou 0,8 ponto, para 50,4 pontos; os dois seguem acima de 50 pontos, o que indica crescimento ainda previsto, porém mais moderado. As expectativas de quantidade exportada (48,9 pontos, queda de 0,6 ponto) e de número de empregados (49,2 pontos, queda de 0,2 ponto) apontam recuo.
Capacidade ociosa cresce e emprego recua
A utilização da capacidade instalada caiu 1 ponto percentual em agosto, para 69%, 2 pontos percentuais abaixo da média histórica do mês, e o índice de evolução do emprego industrial ficou em 48,2 pontos, com recuo de 0,4 ponto frente a julho. O índice de estoques de produtos finais perdeu 1,5 ponto, para 49,5 pontos, indicando redução de estoques na passagem de julho para agosto.
"Esse resultado tão atípico passa pela queda contínua da demanda por bens industriais, mas também por um quadro de incertezas, tanto externas quanto internas. Não dá para negar que a proximidade das eleições traz um certo grau de imprevisibilidade, fazendo com que as empresas se tornem mais cautelosas na hora de investir, produzir e contratar." (Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI)
O cenário acompanha juros ainda altos: a Selic, taxa básica da economia, está em 13,75% ao ano após cinco cortes seguidos, e o juro real brasileiro segue entre os maiores do mundo, segundo o G1. No segundo trimestre, o PIB cresceu 0,5% e a indústria avançou 0,1%, sustentada pelas indústrias extrativas, que cresceram 3,4%, segundo o IBGE.
Do lado de quem produz, a sondagem desenha menos pedidos, mais capacidade ociosa e investimentos adiados, com compra menor de insumos e de contratações nos próximos meses. Do lado de quem consome, a leitura é de indústria contratando menos; ainda assim, a expectativa de demanda segue acima de 50 pontos, ou seja, as fábricas continuam projetando vendas maiores nos próximos seis meses, só que em ritmo mais fraco que em agosto.