O PT protocolou na quarta-feira (2.set.2026) representação no Conselho de Ética do Senado contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O partido pede a perda do mandato do senador por quebra de decoro parlamentar. A ação tem como base o caso Dark Horse, o filme que homenageia o ex-presidente Jair Bolsonaro e cujo financiamento, segundo a legenda, expõe contradições nas declarações do parlamentar. Flávio é candidato do PL à Presidência na eleição de outubro.
O pedido foi assinado pelo líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE). Segundo o Poder360, a revista Piauí publicou nesta semana que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, fez repasses ao projeto em valor superior ao admitido pelo senador.
Os números do financiamento
Flávio negociou com Vorcaro um financiamento de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme, segundo o Congresso em Foco. Documentos já divulgados indicavam ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, pagos entre fevereiro e maio de 2025. O relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) registra, porém, uma transferência de US$ 1,6 milhão em 16 de setembro de 2025 ao fundo americano Havengate Development, que financiou o filme. O repasse ocorreu oito dias depois de o senador cobrar de Vorcaro pagamentos atrasados. Com o novo valor, os aportes conhecidos somam US$ 12,3 milhões, ou cerca de R$ 65 milhões, conforme o Poder360.
Depois que áudios em que pede dinheiro a Vorcaro vieram a público, Flávio afirmou em entrevista que o último repasse ocorrera em maio de 2025. O registro do Coaf aponta pagamento em setembro daquele ano, quatro meses depois. Questionado nesta semana sobre o novo repasse, o senador direcionou as explicações à produtora do filme. Ele nega vantagem pessoal e contrapartidas a Vorcaro, e diz que o filme sobre o pai foi viabilizado com patrocínio privado, sem dinheiro público ou da Lei Rouanet. A assessoria de Flávio não respondeu ao Poder360 até a publicação da reportagem.
"O Senado Federal não pode ignorar fatos dessa gravidade. Quem ocupa um mandato concedido pelo povo tem o dever de agir com verdade, responsabilidade e respeito às instituições. A imunidade parlamentar protege a liberdade de expressão e o exercício do mandato, mas não pode servir de escudo para enganar a sociedade", disse Camilo Santana em nota.
Conselho paralisado
A representação chega a um colegiado paralisado. Segundo o Poder360, o Conselho de Ética não delibera desde julho de 2024, reuniu-se apenas cinco vezes nos últimos sete anos e não tem reunião marcada para este ano, embora o sistema do Senado o registre como em funcionamento. O site oficial do PT informa que o documento também leva a assinatura do presidente nacional do partido, Edinho Silva, e lembra cassações históricas, como as de Luiz Estevão e Demóstenes Torres.
A iniciativa integra a ofensiva do partido no caso Dark Horse, a um mês do primeiro turno da eleição presidencial, em 4 de outubro. Parlamentares governistas pedem a retirada do sigilo das investigações e cobram apuração sobre a eventual suspeição do ministro André Mendonça, do STF, mas o PT descarta apoiar pedidos de impeachment contra o ministro. O próximo passo depende do Conselho: para que a representação avance, o colegiado precisa ser convocado, aceitar o pedido e instalar comissão processante.