Quase 2 milhões de brasileiros trabalhavam por aplicativos em 2025, segundo dados da PNAD Contínua divulgados nesta sexta-feira (4) pelo IBGE. O salário médio mensal é praticamente igual ao dos demais trabalhadores, mas a jornada é mais longa e cada hora vale 12% menos. Na prática, o motorista ou entregador só chega ao mesmo salário trabalhando mais por ele.
Do total, 1,805 milhão de pessoas tinham os aplicativos como trabalho principal e 182 mil como renda extra, segundo o G1. O grupo equivale a 1,9% dos 102,4 milhões de ocupados no país. O Sudeste concentra 55,3% desses trabalhadores, ou 1,083 milhão de pessoas.
Carona é o grosso: 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9%, dirigem para apps de transporte particular de passageiros, como Uber e 99. Em seguida vêm os apps de entrega, usados por 29,9%, grupo que inclui desde entregadores até quem vende o próprio produto. Uma fatia menor, de 313 mil pessoas (16%), presta serviços gerais ou profissionais por app, de faxina a telemedicina, segundo a Agência Brasil.
O contingente cresce rápido. Contando só quem tem o app como ocupação principal, a única forma comparável com anos anteriores, eram 1,3 milhão em 2022 e chegaram a 1,8 milhão em 2025, alta de 36,8% em três anos e de 9,1% no último. Mesmo assim, são apenas 2% dos ocupados do setor privado, embora em transporte, armazenagem e correios três em cada quatro trabalhadores já usem app.
Entenda: a PNAD Contínua é a maior pesquisa de emprego do país, feita pelo IBGE em entrevistas domiciliares. Trabalhador plataformizado é quem presta serviço por um app que conecta trabalhador e cliente, e esse app pode definir preço, cliente, prazo e até a jornada, como explica o G1. Nesta pesquisa, WhatsApp, Instagram e o Marketplace do Facebook não contam como plataforma, e a série ainda é experimental, por isso o IBGE avisa que o total de 2 milhões não é comparável às edições de 2022 e 2024.
Ganham igual, trabalham mais
O rendimento médio mensal do trabalho principal foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual ao dos demais trabalhadores do setor privado (R$ 3.148) e um pouco acima de dois salários mínimos. A diferença está nas horas: 44,7 por semana, contra 39,3 dos demais, segundo o G1. São 5,4 horas a mais por semana, quase 24 horas extras por mês, o equivalente a quase três dias de trabalho.
Por hora, o trabalho por app rendia R$ 16,20, contra R$ 18,40 dos demais: 12% menos. Segundo a Agência Brasil, os valores representam o que efetivamente sobra depois de custos como gasolina e manutenção do carro. De 2022 a 2025, o rendimento dos plataformizados variou só 1%, enquanto o dos demais cresceu 10,6%, segundo o G1.
Quem são e por que trabalham por app
Quem trabalha por app é, na maioria, homem (84,4%) e tem entre 25 e 39 anos (47%). Quase 9 em cada 10 (86,8%) são trabalhadores por conta própria, e só 4,5% têm carteira assinada. A informalidade, ou seja, sem carteira nem CNPJ, atinge 72,1% deles, quase o dobro dos demais (42,7%), e só 34% contribuem para a Previdência, contra 63%.
Os motivos mais citados para trabalhar por app foram flexibilidade de horários (26,8%), não conseguir encontrar outro trabalho (24,6%) e rendimento maior que as alternativas (20,8%). Entre motoristas de transporte e entregadores, não achar outro emprego foi o motivo principal. A dependência é alta: 62,7% trabalham exclusivamente por plataformas e 38,8%, ou 701 mil pessoas, quase 4 em cada 10, dependem de um único aplicativo.
Para o IBGE, o retrato tem dois lados, como resumiu o analista do instituto Gustavo Geaquinto Fontes.
"As plataformas têm oferecido oportunidades de geração de renda para muitos trabalhadores e permitido que as empresas alcancem novos mercados e reduzam custos. Por outro lado, representam um importante desafio para as condições de trabalho", afirmou Fontes.