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Recuperações judiciais sobem 66% em três anos e já somam 6,3 mil empresas no Brasil

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O Brasil tinha 6.341 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026, alta de 66% em três anos, segundo levantamento da consultoria RGF, especializada em reestruturação de empresas, citado em análise publicada pela BBC News Brasil e republicada pelo G1 nesta quinta-feira (27). Só neste ano, a fila de grandes companhias que recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial já inclui Habib's, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, o Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), o Grupo CVLB (Casa & Vídeo e Le Biscuit) e a rede de supermercados St. Marché. O varejo responde por 21% dos casos, o maior recorte setorial, seguido pela indústria de transformação (19,6%) e pelo agronegócio (17,5%), segundo a RGF.

Na recuperação judicial, todas as dívidas da companhia (trabalhistas, tributárias, com fornecedores e bancos) são renegociadas sob supervisão da Justiça, caminho trilhado pela Americanas desde 2023. Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia com um grupo de credores e depois homologa o acordo no Judiciário. As duas modalidades existem para evitar a falência, desfecho que a Justiça decretou para a Oi na última terça-feira (25), após anos de tentativas de reestruturação da operadora.

Juros altos e inadimplência apertam as duas pontas da cadeia

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam três fatores combinados por trás da onda. O primeiro é o custo do dinheiro: a taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano, o que eleva o passivo das empresas e reduz a oferta de crédito ao consumidor. O segundo são erros de gestão, como cortes amplos de cargos gerenciais na última década, que concentraram decisões em poucas mãos. O terceiro é a mudança no mercado de trabalho, com empresas enfrentando dificuldade para reter e formar quadros. O varejo sofre mais porque depende de crédito nas duas pontas da cadeia: para pagar os fornecedores que enchem as prateleiras e para financiar o cliente que leva o produto parcelado.

"De um lado, estão fatores externos à companhia, como a dificuldade de acesso ao capital, os bancos restringindo cada vez mais as linhas de financiamento e de capital de giro, a alavancagem que subiu muito no pós-pandemia, quando a Selic passou de 2% para 15%", disse Fabian Salum, professor titular e pesquisador de estratégias competitivas da Fundação Dom Cabral (FDC).

Salum também cita o endividamento das famílias, com 39% da população inadimplente, segundo dados apresentados na reportagem. "O recuo no consumo faz com que as empresas não alcancem metas. Com isso, elas reduzem investimentos, incluindo qualificação de pessoal", afirmou o professor, que é conselheiro de companhias de médio e grande porte. Na avaliação dele, a causa do fenômeno "tem uma composição híbrida e parece longe do fim".

Governo nega crise generalizada

O tema ganhou peso político às vésperas das eleições, com adversários do presidente Lula usando a fila de recuperações para criticar a condução da economia. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu em entrevista à Globonews no dia 21 que o varejo é pressionado pelos juros, mas negou uma crise generalizada. "Tem uma série de dados da economia brasileira que mostram pujança em vários setores", disse, atribuindo a leitura de crise ao período eleitoral.

O caso mais recente mostra como a pressão chega ao caixa. A Casas Bahia pediu recuperação judicial na semana passada e, segundo a Folha de S.Paulo, alegou à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo que o Banco do Brasil debitou R$ 422 milhões de suas contas depois de honrar garantias acionadas pelos fornecedores Apple e Mapfre Seguros. O banco negou o débito em manifestação à Justiça e acusou a varejista de litigância de má-fé. A recuperação da Casas Bahia ainda não foi aceita pela Justiça.

Para os fornecedores, a onda significa garantias acionadas, prazos de recebimento alongados e critérios mais duros para vender a prazo. Para o consumidor, o efeito aparece no crediário mais caro e mais curto, em um país onde quatro em cada dez adultos já estão com o nome negativado. Se a lista de recuperações seguir crescendo, como preveem os especialistas ouvidos pela reportagem, o aperto tende a descer a cadeia: menos crédito para quem produz, menos prazo para quem compra.

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