Uma rede de influenciadores ataca o voto feminino e o direito das mulheres de irem às urnas no Brasil. É o que mostra uma investigação de três meses da BBC News Brasil, de autoria do repórter Shin Suzuki, publicada nesta segunda-feira (14) e reproduzida pela Folha de S.Paulo. Os ataques ganharam holofotes em junho, quando o influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou "a qualidade" do voto das mulheres.
A declaração não é um caso isolado, segundo a reportagem. Nas redes sociais circulam programas inteiros e "cortes" de podcasts que somam milhares de curtidas e comentários ao exibir frases como "o voto feminino é o erro da democracia ocidental". Outros trechos responsabilizam o sufrágio feminino por problemas da sociedade e pelas dificuldades da vida do homem moderno. O mapeamento da BBC identificou um ecossistema que também abriga mulheres: Fernanda Guardian afirma que abriria mão do próprio direito de votar, e a influencer Pietra Bertolazzi já atacou o voto feminino. O discurso, antes restrito a nichos da internet, passou a ecoar no debate político do Brasil e em círculos conservadores dos Estados Unidos, em ano de eleições gerais.
Da "machosfera" aos podcasts
Muitos desses influenciadores fazem parte da chamada machosfera e da cultura redpill, comunidades que enaltecem um homem forte e dominante, sempre atento às intenções de uma mulher, descreve a reportagem. Um dos nomes centrais é Renato Amoedo, mais conhecido como Renato 38ão, em referência ao calibre de revólver. Ele tinha mais de 900 mil seguidores no Instagram em agosto. O perfil não está mais disponível, e ele diz que a conta foi derrubada.
Em um post deste ano, Amoedo criticou com termos chulos o voto de mulheres não casadas. Foram mais de 20 mil curtidas e quase 500 comentários, a maioria de apoio, segundo a BBC. Ele defende que estudo e trabalho não deveriam ser o foco da vida de uma mulher e disse, em um podcast, que a instituição do voto feminino, que entrou por decreto no Brasil em 1932, foi a origem do Estado de bem-estar social moderno. "A mulher colocar o trabalho e o estudo como a prioridade da vida dela é autodestruição espiritual, física e financeira", afirmou. "Elas são baratas porque são pobres." Em 2022, questionado sobre a legalidade de uma hipotética união entre um homem de 50 anos e uma criança de oito, respondeu: "Se os pais concordarem e todo mundo concordar...". A BBC procurou Amoedo várias vezes; ele não quis dar entrevista, e um assessor disse que ele estava em viagem por Mônaco e Portugal. Ele é presença constante no Redcast, podcast nascido para o público da machosfera, com pouco mais de um milhão de inscritos no YouTube.
"A Constituição tinha que ser rasgada"
A BBC mostrou alguns dos vídeos à ministra Cármen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), hoje a única mulher na corte. "Isso aqui é democracia, as pessoas poderem falar até isso", reagiu.
"Se não tivessem voto, não teriam a liberdade para expressar o que a gente quer, inclusive para ser contra. É isso que a democracia garante, algo que uma ditadura não garante."
Para Cármen Lúcia, a simples proposição de mudar o direito ao voto no Brasil, hoje universal, é inconstitucional. Para extinguir o voto feminino, afirmou, "a Constituição tinha que ser rasgada". O resultado da investigação está na reportagem e no documentário O Ataque ao Voto Feminino, disponível no YouTube da BBC News Brasil. O primeiro turno da eleição presidencial ocorre em outubro.