A taxa básica de juros do Brasil está em 14% ao ano, e é dela que deriva boa parte do que as famílias pagam no parcelamento da geladeira, no rotativo do cartão e no empréstimo do carro. Para dar uma régua: a 14% ao ano, os juros de referência consomem R$ 140 sobre cada R$ 1.000 de dívida em um ano. Nesta quarta-feira (16), o comitê do Banco Central (Copom) anuncia a nova decisão sobre a taxa, e, na véspera, o g1 reuniu, com base nos planos de governo, o que os candidatos à Presidência propõem para reduzir juros, endividamento e gastos.
Os números explicam por que o tema virou pauta de campanha. A Selic fechou 2025 em 15% ao ano, o maior nível em duas décadas, e segue hoje um ponto abaixo disso. O endividamento das famílias bateu recorde em julho, com oito em cada dez domicílios com algum tipo de dívida, segundo levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), o equivalente a oito casas endividadas em cada rua de dez.
Na pesquisa Quaest citada pela BBC News Brasil, a economia é hoje o segundo problema mais citado pelos eleitores, com 16%, quase uma em cada seis pessoas ouvidas, atrás apenas da violência, com 31%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 30 de agosto e 1º de setembro. São 12 as chapas que disputam a Presidência na eleição de outubro.
Entenda: a Selic é a taxa básica de juros da economia, definida pelo Copom, o comitê de diretores do Banco Central que decide, a cada reunião, subir, cortar ou manter o patamar. Juros altos encarecem o crédito e esfriam o consumo, o que ajuda a conter a inflação, mas dificulta o pagamento de dívidas. Já o arcabouço fiscal é a regra que limita o crescimento dos gastos públicos: quando o mercado desconfia das contas, pressiona os juros para cima.
Do Desenrola ao "tesouraço"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, reconhece no plano de governo que a Selic elevada "desorganiza a economia e concentra renda". Para derrubá-la, promete controlar a inflação, manter a regra do arcabouço fiscal e continuar o Desenrola Brasil, programa que renegocia dívidas de famílias e pequenos negócios. O plano prevê ainda ampliar o acesso ao crédito para pequenas e médias empresas e regular as apostas online para evitar o comprometimento da renda.
Em entrevista à Globo, no fim de agosto, Lula disse que a dívida pública "não preocupa" e apostou no crescimento para reduzi-la em relação ao PIB, a soma das riquezas produzidas pelo país em um ano:
"Na medida em que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair em relação ao PIB. 80% de dívida, em um país, não é muito. Olhe para os Estados Unidos, o Japão, a Itália. Sabe quanto é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB"
O senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta num "tesouraço" nos gastos públicos como caminho para reduzir a Selic e quer mudar a regra do arcabouço fiscal. Também propõe rever a reforma tributária, com menos impostos e desoneração de exportações e investimentos. Contra o endividamento, defende regular as apostas online, proibir o uso de verbas de programas sociais nas plataformas de bets e criar o "Empréstimo Contingente à Renda", voltado a estudantes universitários.
"Só com a minha eleição e com a equipe, a taxa de juros já vai cair na reunião seguinte do Copom", declarou o candidato à Globo, prometendo economia por meio do corte de corrupção e burocracia. O g1 lembra que a Selic é definida pelo Banco Central, mas que o presidente da República pode tomar atitudes que pesam na decisão e nos rumos da economia.
O escritor Augusto Cury (Avante) promete criar o "Banco do Empreendedor", com juros de 5% a 6% ao ano em créditos de até R$ 20 mil, menos da metade da Selic atual. Ele propõe ainda revisar as matrizes de risco dos bancos para conter a alta da taxa e taxar as apostas online em 40%. "Entrássemos com inteligência artificial e digitalizássemos toda a máquina pública, nós certamente conseguiríamos economizar o suficiente", afirmou, em entrevista à Globo.
A regulação das apostas online é o ponto em que os planos se cruzam: Lula quer regular o setor para proteger a renda, Flávio quer proibir o uso de dinheiro de programas sociais nas plataformas e Cury propõe taxá-lo em 40%. Nas contas públicas, os caminhos se separam, com o petista mantendo o arcabouço atual, o candidato do PL querendo trocar a regra e Cury apostando na digitalização. A decisão desta quarta é do Banco Central; a dos eleitores, em outubro.