R$ 800 milhões. Esse é o valor que o banqueiro Daniel Vorcaro foi orientado a defender diante do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em 21 de dezembro de 2023, segundo reportagem do jornal O Globo com base no inquérito da Polícia Federal. A orientação não partiu de assessores do próprio Vorcaro: saiu de servidores da autarquia, o órgão que fiscaliza os bancos onde os brasileiros guardam dinheiro.
De acordo com perícia no celular do banqueiro, Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), enviou naquele mesmo dia uma lista de pontos para a reunião com o "Presi". Em depoimento à PF, ele confirmou que o apelido se referia a Campos Neto, relata o Diário de São Paulo. Um dos argumentos era que a venda do banco Voiter ao ex-sócio Augusto Lima formaria um patrimônio líquido de R$ 800 milhões, mais de 43 mil anos de um salário mínimo.
A lista pedia que Vorcaro defendesse a capitalização do Master com créditos tributários do Banif, banco português, citasse pressões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para reduzir garantias e prometesse um aumento de capital. Paulo Sérgio também sugeriu destacar que a compra do Will Bank, digital com forte atuação no Nordeste, permitiria oferecer conta e serviços de pagamento à base de cerca de 4 milhões de clientes do Credicesta, braço de consignado do Master. São mais pessoas do que vivem em qualquer capital brasileira, exceto São Paulo e Rio.
Entenda: o Desup é a área do Banco Central que supervisiona os bancos, examina balanços e pode restringir operações. Já o FGC é o fundo mantido pelas próprias instituições financeiras para cobrir até R$ 250 mil por correntista caso um banco quebre; com o Master em liquidação extrajudicial, é essa trava que protege o pequeno poupador.
O aval e o que veio depois
Meses depois do encontro, ainda sob o comando de Campos Neto, o BC autorizou a transferência do controle da Will Financeira, dona do Will Bank, para o Grupo Master; o negócio foi fechado em 2024. Campos Neto foi convocado a depor como testemunha na investigação, que também examina a atuação de outros diretores da autarquia. O Banco Master e o Will Bank foram levados à liquidação extrajudicial no início de 2026.
Consultoria paralela
O episódio não foi isolado, segundo a PF. Em 5 de fevereiro de 2024, Paulo Sérgio repassou outra lista de argumentos para um encontro com o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino dos Santos, e os dois servidores revisavam ofícios do Master antes do protocolo no regulador e no FGC. Em 2 de outubro de 2025, o chefe do Desup, Belline Santana, criou um grupo de WhatsApp chamado "Master", com ele, Paulo Sérgio e Vorcaro, para agilizar a troca de minutas; em abril daquele ano, Paulo Sérgio havia alterado trechos de uma resposta do banco ao próprio Desup, onde trabalhava.
Para os investigadores, os servidores sabiam da "gravidade e do caráter criminoso" de suas condutas e tentavam esconder o teor das conversas com mensagens simplificadas e ligações de voz, segundo o SBT News. O inquérito mapeou indícios de repasses mensais e de vantagens custeadas por Vorcaro, como uma viagem internacional à Disney com a família de Paulo Sérgio. O relatório da PF resume a leitura dos investigadores:
"Por óbvio, não é razoável que servidor público da área de fiscalização bancária demonstre empenho em negócios privados dos fiscalizados, ou parabenize um dos banqueiros por se tornar dono de outra instituição financeira."