O Brasil já tem 4,6 milhões de consumidores que também são micro ou minigeradores de energia, cerca de 5% do total, e a expansão dessa "energia de telhado" começa a pressionar o sistema elétrico. No domingo (23), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que as distribuidoras cortassem cerca de 1 gigawatt (GW) de geração entre 11h e 13h30, para evitar que o excesso de oferta sobrecarregasse o Sistema Interligado Nacional (SIN). Foi a segunda vez no ano que o plano emergencial foi acionado, segundo o g1 e a Agência Brasil.
O primeiro acionamento ocorreu em 7 de junho, durante o feriado prolongado de Corpus Christi, quando o operador pediu o gerenciamento de 1.000 megawatts entre 10h e 14h. A energia solar e a eólica são fontes intermitentes: dependem de condições naturais que nem sempre coincidem com o consumo. Nos fins de semana, quando a atividade comercial e industrial cai, a geração dos painéis pode superar a demanda. Como a eletricidade não pode ser armazenada em larga escala, o ONS precisa equilibrar oferta e consumo a cada instante.
O risco já se materializou antes. No Dia dos Pais de 2025, a geração distribuída chegou a representar 37,6% da demanda nacional e o excesso de energia quase provocou uma sobrecarga no sistema. Para evitar um apagão que poderia atingir vários estados, o ONS reduziu hidrelétricas e termelétricas ao mínimo e cortou 98,5% da geração eólica e solar centralizada, segundo a Agência Brasil. Mesmo com essas medidas, sobra energia em determinados horários, e os cortes viraram rotina. Os alvos são as usinas Tipo 3, que não são despachadas diretamente pelo operador, como pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e parques eólicos e solares de menor porte, desligadas por meio das distribuidoras.
"O ONS tende a reduzir a geração hídrica ao mínimo, a térmica ao mínimo, mas, mesmo assim, tem mais geração do que consumo e vai cortando. Corta eólica, corta solar, centralizada", explicou ao g1 Roberto Brandão, diretor técnico-científico do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Subsídios pesam na conta de luz
Por trás do avanço está o desenho de incentivos do setor. O Marco Legal da Geração Distribuída, sancionado em 2022, garantiu até 2045 o benefício de não pagar integralmente pelo uso da rede de distribuição a quem solicitou a conexão até janeiro de 2023. Quem aderiu depois entrou em regras de transição, com cobrança gradual pelo uso da infraestrutura. Segundo Clauber Leite, diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética, os subsídios viabilizaram a transformação da matriz, mas viraram peso na tarifa: a Aneel estimou a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) em R$ 52,7 bilhões para 2026, com cerca de R$ 47,8 bilhões pagos diretamente pelos consumidores na conta de luz. "A parte ligada à expansão da GD e a outros subsídios é o ponto mais sensível do debate, porque transfere custos para consumidores que, muitas vezes, não têm condições de instalar painéis", afirmou ele ao g1.
Prejuízos e a resposta do operador
Os cortes têm custo para quem investiu. A consultoria Volt Robotics estimou que, em 2025, os prejuízos com os cortes na geração solar e eólica somaram R$ 6,5 bilhões. Para Joisa Dutra, do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura (Cebi) da Fundação Getúlio Vargas, o excesso de energia compromete o retorno dos investimentos e, em alguns casos, pode dificultar o cumprimento de obrigações assumidas por investidores.
Diante do cenário, o ONS anunciou em 20 de agosto que prepara o Esquema Regional de Alívio de Geração, um sistema para desligar automaticamente parte da geração distribuída em situações críticas, com capacidade de corte de até 3 GW divididos em três estágios, acionado só depois de esgotadas as demais alternativas. Um projeto-piloto deve ser testado até o fim de 2026 em uma distribuidora e, se funcionar, a implementação avança em 2027. A geração distribuída soma hoje cerca de 50 GW de capacidade instalada no país. A Abradee, associação que reúne as distribuidoras, informou que as empresas seguirão as orientações do ONS, mas pediu critérios mais claros para os cortes, de modo a dar segurança operacional e jurídica aos geradores.