O telefonema entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na manhã de sexta-feira (21) mostra que a relação entre os dois presidentes não está abalada, apesar das tensões tarifárias entre Brasil e Estados Unidos. A conclusão é de uma análise do Estadão, para a qual a conversa de cerca de 1 hora e 20 minutos — classificada como "amistosa e cordial" pelo Palácio do Planalto — e seus desdobramentos imediatos indicam que o canal direto entre os líderes segue aberto.
Na ligação, Lula disse a Trump que as alegações usadas por Washington para justificar as novas tarifas contra produtos brasileiros são "infundadas", segundo o G1. As barreiras foram impostas com base em investigações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Em ato de campanha em Belo Horizonte no fim de semana, Lula afirmou que Trump reconheceu o tarifaço como "incorreto" durante a conversa e que, a pedido do americano, o secretário de Comércio dos EUA ligou para o ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, conforme a CNN Brasil.
O efeito prático do telefonema foi confirmado pelo próprio ministro ao blog da jornalista Julia Duailibi: o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, procurou Marcio Elias Rosa logo após a conversa de sexta-feira para propor uma reunião, e Brasil e Estados Unidos retomam nesta semana as negociações técnicas sobre o tarifaço.
"Segundo escalão" na mira de Lula
Em entrevista à TV Record no domingo (23), Lula reforçou a distinção entre o diálogo com Trump e as medidas adotadas pelo governo americano. Segundo o presidente, as conversas são sempre "civilizadas e muito respeitosas", mas os subordinados do republicano agem de forma divergente:
"A minha conversa com o Trump é muito civilizada, é muito respeitosa, tanto da minha parte quanto da parte dele. Mas, depois, o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis. Aí nós não podemos aceitar intromissão de um país, quem quer que seja, na coisa do Brasil."
Lula disse ainda ter "a impressão" de que Trump "é bem melhor na relação política do que a assessoria". A leitura converge com reportagem do Financial Times publicada no sábado (22), segundo a qual o petista passou a apostar no canal direto com Trump para contornar uma "ala ideológica" da Casa Branca liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com quem trocou farpas públicas nas últimas semanas — Rubio acusou Lula de colocar "o próprio ego" à frente dos interesses do povo brasileiro, e o brasileiro chamou o diplomata de "latino-americano frustrado", repercutiu a CNN Brasil. Uma análise da emissora também avalia que "não existe animosidade de Trump em relação a Lula".
O jornal britânico ouviu versões divergentes sobre a aproximação: uma autoridade americana afirmou que Lula estaria "fabricando" a briga com Rubio por acreditar que o sentimento antiamericano o ajudaria a derrotar Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de outubro, enquanto um integrante do governo brasileiro disse haver "uma agenda coordenada da direita do Brasil com a direita no Departamento de Estado dos EUA".
Ao comentar o telefonema, Lula citou os 203 anos de relação diplomática entre os dois países e disse que ele e Trump, "dois homens de 80 anos de idade", devem "passar bons exemplos ao resto do mundo" como líderes das duas maiores democracias do hemisfério. Apesar do otimismo do Planalto com a reabertura do canal, a CNN apurou que integrantes do governo ainda não descartam tentativas de interferência eleitoral por parte de setores dos EUA.