No Distrito Industrial de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, uma planta-piloto instalada em área de 5 mil m² processa argila iônica e a converte em carbonato misto de terras raras, o produto intermediário que antecede a separação dos minerais usados em ímãs de alto desempenho. Foi para essa unidade, o Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR) da mineradora Viridis, que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou nesta semana um financiamento de R$ 77,5 milhões. A decisão veio seis dias depois de o Senado aprovar, em 2 de setembro, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, e ajuda a explicar por que o Brasil ocupa o centro da disputa global por esses recursos.
De acordo com o g1, o dinheiro sai do programa BNDES Mais Inovação, com prazo de 16 anos e custo indicativo de cerca de 4,8%, e foi liberado depois de a Viridis ser selecionada em uma chamada pública do BNDES e da Finep lançada em 2025 para projetos da cadeia de minerais estratégicos. Os recursos vão para o CPTR, inaugurado em maio, no qual a empresa diz ter investido R$ 25 milhões e que é, segundo a Viridis, uma das maiores plantas-piloto do gênero no mundo. A unidade processa 100 kg de minério por hora e pode produzir até 2.920 kg de carbonato misto por ano, além de servir para testar e aperfeiçoar as tecnologias que serão aplicadas no projeto Colossus, uma mina de 373 hectares em fase de licenciamento no município, com extração prevista para começar em 2028. Para o diretor-geral da Viridis, Rafael Moreno, a aprovação, somada a US$ 154 milhões em capital próprio já captados, fortalece a posição financeira da empresa enquanto ela busca o financiamento sênior para viabilizar o Colossus.
"É um investimento voltado para o fomento da produção nacional de terras raras, que contribui para posicionar o Brasil como fornecedor estratégico global de minerais críticos para a transição energética", afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, citando também o apoio ao ecossistema de inovação da região de Poços de Caldas e a geração de empregos qualificados.
O que o Senado aprovou
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, projeto de lei 2.780/2024, de autoria do deputado Zé Silva (Solidariedade-MG), foi aprovada sem mudanças de mérito e segue direto para a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a Agência Senado, o texto prevê até R$ 7 bilhões em incentivos a projetos de processamento e transformação, com R$ 2 bilhões da União para criar o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM) e outros R$ 5 bilhões para beneficiar os minerais dentro do território nacional. Empresas de pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação deverão destinar, por seis anos, 0,2% da receita operacional bruta ao fundo garantidor e 0,3% a pesquisa, desenvolvimento e inovação. "Minerais críticos se tornam coluna mestra de outras cadeias produtivas, e sua quebra ou desabastecimento pode causar efeitos indesejados e significativos nos outros setores relevantes nacionais", disse o relator, senador Eduardo Braga (MDB-AM).
Washington, Pequim e a corrida mineral
As terras raras entram em carros elétricos, turbinas eólicas, chips avançados e equipamentos militares, e o mercado é hoje concentrado na China, responsável por cerca de 90% do processamento mundial e detentora das maiores reservas conhecidas, segundo o g1. O Brasil tem as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos do mundo e ainda explora pouco esse potencial, o que o transformou em alvo do interesse dos Estados Unidos.
Em abril, a USA Rare Earth, empresa na qual o governo americano tem participação, anunciou a compra da Serra Verde, até então a única exploradora de minerais críticos em operação no país e a única fora da Ásia a fornecer os quatro principais minerais para ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. O negócio foi de US$ 2,8 bilhões e, três meses depois, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou planos de investir US$ 1,6 bilhão na compradora em troca de 16 milhões de ações. Antes da venda, a Serra Verde operava com um contrato de dez anos com a chinesa Shenghe Resources, encerrado em 2025, sete anos antes do previsto, e chegou a exportar 85% da produção de um ano para a cadeia chinesa. Em agosto, o Departamento da Guerra americano divulgou um pacote de US$ 750 milhões para aquisição de minerais do projeto Pela Ema, da Serra Verde, parte de um projeto de US$ 1,55 bilhão, com compromisso de compra de ao menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras ao longo de cinco anos.
O governo brasileiro manifestou preocupação com o acordo e estuda acionar o Poder Judiciário para vetá-lo, porque ele prevê a exportação dos recursos sem exigir que parte do processamento seja feita no país, relata o g1, que também noticiou a retomada, poucos dias depois, das negociações comerciais entre Brasil e EUA sobre as tarifas aplicadas ao país.
Em Poços de Caldas, enquanto isso, o carbonato misto segue saindo da planta-piloto em escala reduzida. A futura mina de 373 hectares fica a cerca de 300 metros de casas e divide a opinião dos moradores, e a prefeitura chegou a pedir ao Estado que não autorizasse a lavra perto da população, segundo reportagens do g1. A pergunta que se decide em Brasília e nos gabinetes de Washington, exportar o minério bruto ou construir em solo brasileiro a indústria que o transforma, começa a ser respondida na argila iônica processada no Distrito Industrial da cidade mineira.