A União Europeia bloqueia, a partir desta quinta-feira (3), as importações brasileiras de carne bovina, frango, carne suína, pescados, mel e ovos, além de animais vivos. O veto, anunciado em maio, decorre da retirada do Brasil da lista de países que cumprem as regras do bloco para o uso de antimicrobianos na pecuária. Nesta quinta, o ministro da Agricultura, André de Paula, cobrou revisão da decisão e disse que o governo está "indignado" com o bloqueio.
Segundo o G1, a avaliação da UE é de que o controle brasileiro sobre essas substâncias é insuficiente, e a medida não decorre de irregularidades encontradas na carne. As normas do bloco proíbem antimicrobianos como promotores de crescimento e o uso, em animais, de fármacos reservados ao tratamento de pessoas. O Ministério da Agricultura publicou em abril uma portaria que proíbe aditivos como avoparcina, virginiamicina e bacitracina, propôs em maio um período de transição, recusado pela UE, e apresentou em junho um novo protocolo de controle. Segundo a CNN Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou carta, no fim de julho, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo uma solução.
Peso nas exportações
Em 2025, a UE absorveu 3,7% do volume e 5,8% do valor das exportações brasileiras de carne bovina, segundo o Ministério da Agricultura. No frango, o bloco pesa mais: as vendas cresceram 73% entre janeiro e julho deste ano, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Com a data do veto se aproximando, importadores europeus anteciparam compras. "Se no dia 3 você não vai mais poder me vender, eu quero que você me venda mais agora", descreveu o presidente da entidade, Ricardo Santin, ao InfoMoney. Os embarques mensais de frango ao bloco, historicamente entre 15 mil e 20 mil toneladas, superaram 30 mil toneladas no primeiro semestre e chegaram a 40 mil toneladas em maio.
Na avaliação de Santin, a antecipação formou estoques na Europa e reduz o risco de pressão imediata sobre os preços do frango no Brasil. Lotes certificados até quarta-feira (2) ainda podem ser embarcados e chegar ao mercado europeu semanas depois. No bovino, o volume destinado à UE é pequeno, mas concentra cortes nobres, como filé mignon, contrafilé e alcatra. Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar para o bloco, e entidades do agro brasileiro classificam a medida como protecionista, porque foi anunciada dias após a entrada em vigor do acordo comercial entre a UE e o Mercosul.
Preço no balcão
Para o consumidor, a suspensão não deve baratear o churrasco. "É pouquíssimo provável que isso aconteça", disse ao G1 o analista da Safras & Mercado Fernando Henriques Iglesias. Os preços das carnes já acumulam alta de 8,53% em 12 meses, segundo a prévia da inflação de agosto, do IBGE, com filé mignon em alta de 15,2% e contrafilé, de 11,5%. Iglesias projeta alta até o fim do ano, porque os frigoríficos retomam em outubro os abates voltados à China, que fixou para 2026 cota de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, com tarifa adicional de 55% acima do limite. O Brasil atravessa ainda a baixa do ciclo pecuário, com menos bois disponíveis para abate.
Uma missão técnica da UE encerra nesta sexta-feira (4) auditoria às cadeias de frango e mel no Brasil, e a análise do relatório deve levar cerca de dois meses. Para André de Paula, nenhum critério justifica a exclusão do Brasil, que atende a mais de 170 países.
"Nós vamos seguir trabalhando, manifestando a nossa indignação em relação a essa questão. Eu tenho muito otimismo que rapidamente isso possa ser revertido."
O ministro falou durante participação na Expointer, no Rio Grande do Sul. Enquanto a revisão não vem, os dois extremos da cadeia sentem o veto em sentidos opostos: pecuaristas e frigoríficos perdem o destino que paga mais pelos cortes nobres, e o consumidor brasileiro segue vendo a carne subir no varejo.