Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, contratou em 2024 o empresário Francisco Feitosa, o Chiquinho, ex-cunhado do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam remuneração de R$ 500 mil mensais, negociada em setembro de 2024, com parcela extra de R$ 800 mil no primeiro pagamento. No período, Gilmar relatava ações sobre a abertura de novos cursos de medicina, e Chiquinho tratou de interesses do banqueiro ligados a universidades privadas.
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo na madrugada desta sexta-feira (18) e pelo Estadão na noite de quinta (17). Segundo a Folha, os diálogos entre Vorcaro e um número de telefone atribuído a Chiquinho ocorrem de abril de 2024 a junho de 2025. O Estadão detalha que as conversas extraídas do celular do banqueiro pela PF cobrem o período de 15 de abril a 13 de novembro de 2024 e registram pagamentos por serviços de assessoria. À época, Chiquinho ainda era cunhado do ministro: sua irmã, a advogada Guiomar Feitosa, foi casada com Gilmar até o divórcio, em novembro de 2025.
Medicina e precatórios na pauta
O Estadão aponta que Chiquinho tratou com Vorcaro de dois processos que estavam no STF. Um envolvia precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, da Paraíba, adquiridos por fundos do Master. O outro, relatado por Gilmar, definia regras para a abertura de vagas em cursos de medicina, área em que o banco era, à época, sócio e financiador de uma universidade por meio de um desses fundos. Nos dois casos, segundo o jornal, o ministro votou contra os interesses do Master.
Procurado, Gilmar negou qualquer envolvimento e disse, em nota ao Estadão:
"O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente."
Em nota à Folha, a assessoria do ministro afirmou que ele nunca tratou de pauta do MEC (Ministério da Educação) com Vorcaro ou com Chiquinho e que votou a favor do governo, e não das universidades, na ação sobre os novos cursos. Gilmar admitiu ter recebido advogados do Master em audiência no STF e frisou que o encontro ocorreu "na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado".
Contrato admitido por "curto período"
Chiquinho, que foi deputado e senador pelo Ceará, primeiro negou ter trabalhado para Vorcaro. Confrontado pela reportagem do Estadão com o contrato, admitiu a prestação de serviço por "curto período" e disse que a contratante, a Super Empreendimentos, era vista como idônea e "atuava em diversos segmentos". "Não fui contratado para promover ou intermediar a aproximação entre quaisquer pessoas, ou muito menos o ministro Gilmar Mendes", afirmou. Segundo a Folha, ele contou que marcou, a pedido de Vorcaro, uma reunião com a irmã, Guiomar. "Ele ficou de trazer para ela números de processos, coisa que nunca aconteceu."
A Super Empreendimentos é investigada pela PF como suposto canal de pagamentos de Vorcaro a uma milícia privada e a agentes públicos, segundo a Folha. O Estadão registra que a polícia aponta a empresa como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Chiquinho não informou valores nem os serviços prestados. Os diálogos integram o material do celular de Vorcaro apreendido no inquérito, que segue em curso na Polícia Federal.