O Banco Central cortou de 2% para 1,8% sua previsão de crescimento do PIB deste ano e apresentou a primeira estimativa para 2027: alta de 1,4%. Os números estão no Relatório de Política Monetária do terceiro trimestre, divulgado nesta quinta-feira (24). Na prática, o país deve produzir, contratar e conceder aumentos salariais mais devagar do que em 2025, quando o PIB cresceu 2,3%, segundo o IBGE.
Para dimensionar a desaceleração: a diferença entre os 2,3% de 2025 e os 1,4% projetados para 2027 é de 0,9 ponto percentual. Sobre um salário de R$ 4 mil por mês, isso equivaleria a cerca de R$ 36. É como se a economia inteira recebesse um aumento um pouco menor a cada ano.
Por que o corte
Segundo o BC, a revisão deste ano incorpora os primeiros indicadores do terceiro trimestre, que apontam atividade mais fraca que o previsto, e uma "composição menos favorável do crescimento" no segundo trimestre. O PIB do segundo trimestre veio um pouco acima do esperado, mas puxado por setores que dependem pouco do bolso das famílias.
"Embora o resultado agregado do PIB tenha superado ligeiramente o esperado, as surpresas positivas concentraram-se em segmentos menos sensíveis ao ciclo econômico, notadamente a agropecuária e a indústria extrativa. Os setores mais cíclicos da oferta e o consumo das famílias, por sua vez, surpreenderam em sentido oposto", escreveu o BC.
Em outras palavras, o agronegócio e a extração mineral seguraram o resultado, enquanto o consumo das famílias decepcionou.
Entenda: o PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, do pão da padaria ao aplicativo de celular. O Relatório de Política Monetária é o documento trimestral em que o BC explica suas decisões de juros e publica as projeções oficiais para PIB e inflação.
Juros altos e impulso menor em 2027
Para 2027, primeiro ano do próximo mandato presidencial, o BC projeta "expansão moderada" e lista os freios: juros mantidos em "terreno contracionista", ou seja, em nível alto o bastante para frear consumo e investimento; pouca capacidade ociosa, com fábricas e serviços operando perto do limite; cenário externo incerto; e diminuição dos impulsos fiscal e de crédito. Espera-se, ainda, contribuição menor da agropecuária e da indústria extrativa, os dois setores que puxaram o crescimento deste ano.
Em ano eleitoral, o governo tentou acelerar a economia com linhas de crédito subsidiado para caminhoneiros, taxistas, microempreendedores, reforma de imóveis e renegociação de dívidas. O BC espera que esse impulso diminua no ano que vem.
A taxa básica de juros, a Selic, que influencia as parcelas do crediário e o rendimento da poupança, está em 13,75% ao ano após cinco cortes seguidos, e segue entre as mais altas do mundo em termos reais, segundo o g1. O BC também não espera que a inflação volte ao centro da meta, de 3% ao ano, antes de 2029, de acordo com a Folha. No horizonte que a autoridade mira ao calibrar os juros, o primeiro trimestre de 2028, a projeção é de 3,2%.
Choque com o Orçamento de 2027
As projeções do BC ficam abaixo das contas do governo, e a diferença pesa no caixa. O Ministério da Fazenda prevê crescimento de 2,3% em 2027, número revisado para baixo nesta semana, e o projeto de Orçamento enviado ao Congresso no fim de agosto trabalha com 2,46%, segundo o g1. Já os economistas do mercado, ouvidos no boletim Focus de segunda-feira (21), levantamento semanal do BC, estimam 1,43%, praticamente em linha com a projeção da autoridade monetária.
Menos PIB significa menos impostos arrecadados. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão do Senado que fiscaliza as contas públicas, projeta déficit de R$ 86,1 bilhões em 2027, contra superávit de R$ 18,6 bilhões previsto pela equipe econômica. Para cumprir a meta fiscal, o próximo governo terá de bloquear gastos no início do mandato, avalia a IFI.