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BC prepara medidas contra endividamento recorde das famílias; UBS vê risco para bancos

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RAPor Rafael Albuquerque•27 de agosto de 2026•Fontes: InfoMoney, O Globo

O número da semana é 49,8%. Essa é a fatia da renda anual das famílias brasileiras comprometida com dívidas em 2026, o maior nível da série histórica do Banco Central. Na prática, uma família que ganha R$ 60 mil por ano deve, em média, quase R$ 30 mil.

O quadro é dissonante. A renda disponível das famílias atingiu o recorde de R$ 822 bilhões em maio, e o desemprego recuou a 5,4%, perto da mínima histórica. Ainda assim, endividamento e inadimplência seguem em alta, segundo o BC.

Foi contra esse cenário que o Banco Central informou nesta quarta-feira (26), em comunicado do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), que prepara medidas para mitigar os riscos do crédito. O texto aponta o peso das modalidades mais caras na dívida das famílias e diz que a meta é "fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro".

Dois dias antes, na abertura do Febraban Tech, evento do setor bancário em São Paulo, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, já havia dito que estuda ferramentas para conter a alavancagem (o endividamento) das famílias, com mudanças "suaves e progressivas". Ele foi direto: "Não dá pra ficar contente com a notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu".

A conta aparece no bolso do consumidor. O país tem 96 milhões de usuários de cartão de crédito, 57% da população adulta, e 52,8 milhões deles pagam juros no rotativo (a parte da fatura que não é quitada) ou no parcelado. A taxa média do rotativo chega a 15,1% ao mês: quem deve R$ 1.000 desembolsa cerca de R$ 151 de juros em um único mês, o preço de uma compra de mercado da semana.

Outras linhas correm mais soltas. O consignado privado (empréstimo descontado do salário) cresceu 145% em um ano, para R$ 102 bilhões, e o crédito pessoal sem garantia avançou 188% desde 2020, para R$ 397,2 bilhões, com juros de até 149,5% ao ano. A essa taxa, uma dívida de R$ 1.000 vira quase R$ 2.500 em doze meses.

Entenda

Medidas macroprudenciais são regras do Banco Central que miram o sistema financeiro como um todo. Na prática, o BC pode obrigar os bancos a deixar mais dinheiro retido (o chamado compulsório), exigir mais capital para empréstimos arriscados ou encarecer o crédito via impostos como o IOF. A ideia é esfriar os empréstimos antes que o calote vire problema para o sistema.

É a falta de detalhes que incomoda o mercado. Em relatório, o banco suíço UBS afirma que as falas de Galípolo adicionam incerteza ao setor bancário, porque não está claro qual ferramenta será usada. O UBS lembra que o crédito a pessoas físicas cresce cerca de 11% ao ano, ritmo que não considera exagerado, e que o compulsório está perto das mínimas históricas, o que daria margem para uma alta.

O relatório cita o precedente de 2011, quando o BC elevou a exigência de capital para empréstimos de longo prazo e o governo subiu o IOF do crédito a pessoa física de cerca de 1,5% para 3% ao ano. Mesmo cauteloso, o UBS manteve recomendação de compra para Nubank, Bradesco, Itaúsa e Inter.

O BC tentou acalmar. Segundo o Comef, os bancos mantêm capital e liquidez acima do exigido, e "as provisões para perdas de crédito e os níveis de liquidez e de capital se mantêm adequados". Para o comitê, o sistema financeiro está preparado para a materialização do risco de crédito.

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