O Banco de Brasília (BRB) afastou de forma preventiva cinco funcionários citados em investigações internas sobre o caso Banco Master, divulgou o banco nesta segunda-feira (14/9). Segundo apurou o Correio Braziliense com fontes internas, o grupo inclui dois ex-diretores, das áreas de finanças e de controle e riscos, e três superintendentes. Os afastamentos aconteceram há cerca de três semanas e só agora foram tornados públicos.
A decisão foi tomada pela corregedoria, com aval do Conselho de Administração. Os nomes e os cargos não foram divulgados oficialmente. Em nota, o BRB afirmou que os afastamentos são cautelares e que não representam antecipação de juízo sobre o mérito das investigações. Em agosto, os acionistas autorizaram a instituição a acionar na Justiça ex-gestores considerados responsáveis por prejuízos; o banco tem 90 dias, contados da aprovação, para definir a lista de alvos.
Segundo a Polícia Federal (PF), a gestão fraudulenta de ex-dirigentes do BRB nas operações com o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro, envolveu carteiras de R$ 17,5 bilhões. O relatório dos peritos apontou seis ex-integrantes da diretoria colegiada nas aprovações, entre eles o ex-presidente Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa. O laudo diz que o banco dispunha de "sinais prudenciais, financeiros e reputacionais relevantes sobre o Banco Master", formalmente incorporados ao seu ambiente informacional, "mas não demonstrou sua consideração no processo decisório". O Master foi liquidado pelo Banco Central, e o governo do Distrito Federal tenta reaver parte dos valores para cobrir o rombo deixado no BRB, segundo o G1.
Como funcionava a "linha de montagem" de documentos
A perícia da PF descreveu uma fábrica digital de papéis. Funcionava como uma linha de montagem industrial aplicada à papelada: dados reais de clientes, extraídos de sistemas internos com consultas SQL e organizados no Excel, viravam a matéria-prima; a mala direta do Word preenchia 2.700 procurações de uma vez; programas escritos em C# separavam páginas de assinatura, as cédulas de crédito, que formalizam os empréstimos, eram assinadas digitalmente em grupos e tudo era reunido em PDFs para formar dossiês com cara de operações legítimas. Os dados vinham de produtos reais, como o CredCesta, crédito consignado para servidores, aposentados e pensionistas. A fachada era a Tirreno Consultoria, criada com R$ 100 de capital, sem sede nem funcionários, usada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias que o Master vendeu ao BRB.
O rastro incomodava. Um Termo de Consentimento datado de 24 de fevereiro de 2023 teve a data removida em julho de 2025, segundo o relatório. As provas vieram de uma apresentação interna de 30 slides, apreendida na área de tecnologia do Master, que documentava a produção de documentos entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025. Nas conversas internas, os próprios técnicos desconfiavam da base usada; "ta meio furado essa lista ai", escreveu Rafael Manfrin da Silva, da área de tecnologia, sobre os CPFs selecionados, segundo o G1. Mesmo com as edições, a perícia digital encontrou diferenças entre as datas dos documentos e das assinaturas. É a versão em papel de apagar a data de uma foto antiga sem notar que o arquivo continua guardando quando ela foi editada.
O que ainda não sabemos
Não sabemos se os cinco afastados coincidem com os ex-diretores citados no laudo da PF, já que o banco mantém os nomes em sigilo, e o afastamento, por si só, não estabelece culpa. Também está em aberto quanto o Distrito Federal conseguirá reaver do prejuízo. Os incentivos explicam a movimentação: o BRB, controlado pelo governo local, precisa mostrar rigor interno e recuperar dinheiro na Justiça; os citados têm todo o interesse em contestar o vínculo com as decisões. O leitor deve acompanhar dois marcos: o fim do prazo de 90 dias para o banco definir quem processará e a eventual revelação dos nomes pela Justiça. Para quem trabalha com sistemas, a lição prática é direta: a fraude caiu justamente nos metadados que a edição dos PDFs tentou apagar.