As quatro principais sociedades de cardiologia do mundo publicaram nesta sexta-feira (28) a 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, documento que aposenta a classificação dos casos em tipos numerados, de 1 a 5, e passa a agrupá-los conforme o mecanismo que provocou a lesão no coração. O texto saiu no periódico European Heart Journal e foi apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) 2026, em Munique, na Alemanha. Um dos recados centrais da revisão é direto: um exame de sangue com troponina alterada, sozinho, não fecha o diagnóstico de infarto.
O documento foi elaborado em conjunto pela ESC, pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF), com especialistas de 12 países e cinco continentes, segundo o G1. De acordo com dados citados pela Veja a partir do próprio documento, a prevalência estimada de infarto é de 3,8% entre pessoas com menos de 60 anos e de 9,5% acima dessa faixa, e a doença segue entre as principais causas de morte no mundo.
De cinco tipos, três grupos
Na nova estrutura, o infarto primário nasce de uma alteração aguda na própria artéria coronária. A causa mais comum continua sendo a ruptura ou erosão de uma placa de aterosclerose seguida da formação de um coágulo, mas o grupo reúne também a dissecção espontânea da artéria, a embolia e o vasoespasmo. O infarto secundário ocorre quando outra doença desequilibra a relação entre o oxigênio que chega ao coração e o de que o órgão precisa, como numa anemia grave, numa queda intensa da pressão ou em certas taquicardias. Já o infarto relacionado a procedimento surge como complicação de uma intervenção cardíaca, como um cateterismo ou uma cirurgia de revascularização, numa janela de até 30 dias.
É no grupo secundário que a definição aperta o critério. Segundo o G1, ter uma doença capaz de gerar o desequilíbrio e apresentar troponina alta deixou de ser suficiente: é preciso reunir evidência de isquemia e de lesão do músculo cardíaco compatíveis com infarto, de modo a separar quem de fato infartou de quem tem uma lesão no coração provocada por outro processo. A revisão também extinguiu o antigo tipo 3 e abandonou os múltiplos de troponina (cinco ou dez vezes o limite de referência) usados para classificar infartos ligados a procedimentos, que passam a depender de critérios objetivos de imagem. Para o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, amarrar a classificação à origem do infarto é o avanço mais direto da revisão, disse ele ao G1. Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Famerp, lembrou os quadros graves, como o choque séptico, em que o infarto aparece como desdobramento de outra doença. A Veja destacou ainda que a dissecção espontânea da artéria coronária, incluída entre os infartos primários, afeta predominantemente mulheres e ainda é considerada subdiagnosticada.
O que está confirmado e o que ainda é expectativa
O que está confirmado é a publicação do novo consenso e a aposentadoria da classificação numérica. O impacto prático, porém, segue como expectativa dos autores: a esperança declarada é de diagnósticos mais consistentes entre hospitais e países, algo que só poderá ser medido com a adoção do documento. No Brasil, o tema chega em meio a um dado que preocupa: as internações por infarto em pacientes com até 39 anos mais que dobraram nos últimos 15 anos, segundo dados apresentados pela reportagem do G1. A nova definição não altera essa tendência, mas tende a tornar mais precisa a contagem dos casos reais.
Para o paciente, a conduta diante dos sintomas não muda. Dor ou pressão no peito, falta de ar, suor frio ou mal-estar súbito pedem avaliação imediata em um serviço de emergência. O que a revisão deixa claro, segundo os especialistas ouvidos pelas reportagens, é que o diagnóstico de infarto é clínico: o exame de sangue é uma peça importante, mas precisa vir acompanhado de sintomas, eletrocardiograma e, quando necessário, exames de imagem das coronárias.