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Cassiterita ilegal da Amazônia: esquema de R$ 200 milhões ligado a gigantes de tecnologia

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Um esquema de ao menos R$ 200 milhões, movimentado entre 2020 e 2025 com cassiterita extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e do Parque Nacional dos Campos Amazônicos teria abastecido a cadeia de fornecimento de gigantes globais como Apple, Microsoft, Amazon, Sony, Disney e PepsiCo. A conclusão está em documentos sigilosos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e em apurações do Ministério Público Federal (MPF) obtidos com exclusividade pelo jornal O Globo, que abriu neste fim de semana a série "Ouro Invisível" sobre minerais ilegais da Amazônia.

No centro da acusação está a White Solder, fundidora de estanho com sede em Ribeirão Preto (SP) e unidades em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), que se apresenta como uma das maiores produtoras do mundo. A denúncia do MPF, aceita pela juíza Mirna Brenda Magalhães Salmázio, da 4ª Vara Federal Criminal de Boa Vista, tornou réus quatro empresas e seis pessoas, entre elas o sócio-administrador Alessandro Saccoman Torrente, além da própria White Solder, da Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin), de Ariquemes, da Cataratas Poços Artesianos e da TARP Táxi Aéreo. A fundidora já tinha sido alvo da mesma operação da PF em 2023, sob suspeita de comprar minério de origem ilegal. Segundo a apuração, a Coopertin emitia notas e guias falsas para simular que a cassiterita vinha de minas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM): 97,6% dos créditos da cooperativa em um período de cinco meses foram parar na White Solder, o equivalente a R$ 166,3 milhões, empregados para dar aparência legal a ouro e a mais de 525 toneladas de cassiterita. A contabilidade apreendida pela PF registrou o escoamento dessas mais de 525 toneladas apenas entre maio e agosto de 2021.

Do garimpo ao balanço das multinacionais

Fundida em lingotes nas unidades de Rondônia, a cassiterita perdia as características físicas que poderiam indicar sua origem e, com papéis regulares, entrava no mercado formal. Os procuradores cruzaram relatórios de auditoria apresentados pela própria White Solder com a base da SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, e constataram que a fundidora figurava como fornecedora formal de estanho nos balanços de companhias listadas em bolsas americanas. Além das tecnológicas, a série cita Starbucks, Caterpillar, Colgate-Palmolive, Victoria's Secret e Levi's. Dez multinacionais com atuação no Brasil foram notificadas em investigação cível por falhas nos mecanismos de verificação socioambiental e de direitos humanos. O MPF pediu R$ 1,7 bilhão em indenização por danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos de toda a cadeia, da extração à comercialização, e sustenta que cabe às grandes compradoras provar a origem legítima do estanho. O metal solda componentes eletrônicos, de celulares a chips de inteligência artificial.

O procurador André Luiz Porreca, do 2º Ofício da Amazônia Ocidental, que responde por Roraima, Rondônia e Acre, explicou ao jornal como chegou ao valor:

"Eu estou pedindo esses valores com base em casos análogos. Meus critérios foram, em síntese, gravidade dos fatos, sofisticação do esquema criminoso, capacidade econômica dos infratores e tempo de duração da atividade ilícita."

Rastro na floresta

Na Terra Indígena Yanomami, a extração operava com escavadeiras, bombas de sucção, aeronaves e pistas clandestinas. No Parque Nacional dos Campos Amazônicos, na divisa de Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, uma vistoria de 2024 identificou acampamentos clandestinos e áreas degradadas: imagens do Censipam apontam 193 hectares de floresta devastados e 15 pistas de pouso ilegais no parque e em sua zona de amortecimento. Dario Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami, disse à reportagem que a demanda por cassiterita segue impulsionando invasões, mesmo depois das operações de remoção de garimpeiros. Peritos da PF identificaram ainda, em rejeitos do beneficiamento, monazita, ilmenita e columbita, fontes de terras raras, nióbio e tântalo, minerais estratégicos que passaram a ser aproveitados pela rede conforme crescia a demanda internacional.

Procurada, a White Solder não respondeu até a publicação. A empresa Amazon negou relação comercial direta com a fundidora e disse reforçar mecanismos de verificação junto a fornecedores, e a Disney informou que não foi citada no inquérito; as defesas dos demais acusados negam envolvimento. A fundidora ostentava selos internacionais, como o LME Brand, da Bolsa de Metais de Londres, e o aval do Responsible Minerals Initiative, e anunciava certificações de clientes como Sony e Panasonic, segundo a Repórter Brasil. O ponto fraco apontado pelas autoridades é a rastreabilidade: a ANM admitiu que não existe sistema nacional capaz de acompanhar a cassiterita da extração à indústria, e o Serviço Geológico do Brasil informou que estudos como os que começam a ser feitos para o ouro ainda não existem para o minério.

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