O Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor até o fim do ano, sob o efeito de um El Niño que pode se tornar um dos mais intensos já registrados. A previsão consta de uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) baseada em 47 anos de registros de temperatura. O número pode ser ainda maior: no último El Niño, entre 2023 e 2024, o país viveu nove ondas de calor entre agosto e dezembro, o maior total da série histórica iniciada em 1979 e mais que o dobro da média nacional, de quatro episódios.
Pelo critério usado na pesquisa, uma onda de calor ocorre quando, por pelo menos três dias seguidos, as temperaturas máximas e mínimas ficam excepcionalmente acima do normal, sem alívio nem durante a noite. "Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes", afirmou ao G1 a pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em ciências do Sistema Terrestre e autora do levantamento no Cemaden. "Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país."
Ondas mais frequentes e mais extensas
O estudo aponta uma mudança de comportamento do calor extremo no território. Nos anos 1980 e 1990, os episódios eram raros e concentrados em regiões específicas, como o Nordeste. A partir de 2010, e de forma mais acentuada depois de 2020, as ondas passaram a ocorrer com mais frequência e a cobrir o país inteiro ao mesmo tempo. "A gente percebe que a onda de calor passa a afetar todo o país, e isso é uma questão porque estamos falando de calor adicional em áreas já quentes e em áreas que não têm resiliência para enfrentar temperaturas tão altas", disse Mabel. Em 2024, mais de 6 milhões de brasileiros enfrentaram pelo menos 150 dias de calor extremo, segundo levantamento do G1.
A intensidade prevista tem origem no Pacífico equatorial. O El Niño atual foi declarado oficialmente em junho e vem ganhando força com rapidez. Segundo a MetSul, o modelo do Met Office, o serviço meteorológico do Reino Unido, projeta temperaturas superiores a 3°C acima da média na região Niño 3.4 do Pacífico, patamar que colocaria o episódio na categoria de Super El Niño e o faria superar os grandes eventos de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. O serviço britânico estima ainda que 2027 pode superar 2024 como o ano mais quente já medido no planeta.
O gatilho imediato das ondas costuma ser a formação de áreas de alta pressão que ficam paradas sobre uma região por vários dias, bloqueando a formação de nuvens e a chegada de chuva e prendendo no lugar uma massa de ar seco e quente. Sem chuva, a umidade do solo se esgota, o que intensifica o aquecimento e pode reforçar quadros de seca já existentes. Com o planeta mais quente, cada episódio desse tipo gera picos mais extremos do que geraria décadas atrás. Para setembro, os mapas de previsão já mostram quase todo o Brasil em tons de laranja e vermelho, com temperaturas que podem chegar a 3°C acima da média, segundo o G1.
Seca severa em 157 cidades
O calor tende a agravar a seca. Pelo Índice Integrado de Seca, produzido pelo Cemaden para o governo federal, 157 cidades já estão em seca severa, a maioria no Norte e no Nordeste. O Tocantins concentra 50 municípios nessa condição, e a Bahia, 18. "As regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões", afirmou a pesquisadora Ana Paula Cunha, especialista em secas do Cemaden.
Também cresce o risco de incêndios. Um levantamento conjunto do CPTEC/Inpe, do Inmet e da Funceme classifica os municípios brasileiros por nível de risco de fogo, cruzando dados de atividade humana, como tendência e acúmulo de focos de calor. Junto com os alertas emitidos pelo Cemaden, esse monitoramento é hoje a base para que estados e municípios se preparem para os episódios de calor extremo, seca e queimadas que o El Niño deve intensificar nos próximos meses.