As concessionárias de saneamento do Brasil pediram à Justiça a suspensão temporária, por 90 dias inicialmente, da obrigação de adicionar flúor à água distribuída à população. O pedido foi feito pela Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento), que vê risco de desabastecimento de ácido fluossilícico nos próximos meses, segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta quarta-feira (26). O motivo foi a interrupção do fornecimento do insumo pela fabricante de fertilizantes Mosaic, afetada pela alta do enxofre em meio ao conflito no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.
O ácido fluossilícico é um subproduto da produção de fertilizantes à base de fosfato, processo que usa enxofre como matéria-prima. Com a escalada do preço do enxofre, a Mosaic parou de fornecer o insumo às companhias de água. A Folha informou que a Aesbe estuda importar o produto como alternativa. A fluoretação da água é obrigatória no Brasil desde 1974, pela lei federal 6.050, e qualquer suspensão depende de decisão judicial.
Entre as associadas à Aesbe estão Sabesp (São Paulo), Cagece (Ceará), Cagepa (Paraíba), Cesan (Espírito Santo), Sanepar (Paraná) e BRK. Até agora, o que está confirmado é o pedido judicial e a interrupção do fornecimento pela Mosaic. Ainda não se sabe quantos sistemas de fato ficarão sem o insumo nem por quanto tempo a suspensão pode durar, caso seja autorizada. O caso também foi noticiado pelos jornais O TEMPO e Jornal de Brasília.
Impacto depende da duração
Do ponto de vista da saúde bucal, o efeito é gradual. Segundo Thiago Lucena, dentista e mestre em Odontologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o flúor dissolvido na água protege os dentes dos ácidos produzidos por bactérias e favorece a remineralização do esmalte. Nenhum estudo foi apresentado pela entidade quantificando o aumento esperado de cáries; a preocupação cresce na medida do tempo em que a população ficar sem a fluoretação.
"A suspensão temporária da fluoretação não significa que as pessoas vão desenvolver cárie imediatamente, mas retira uma importante camada de proteção coletiva", afirma Lucena.
Os grupos mais expostos são crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, para quem a água fluoretada costuma ser a principal fonte de contato regular com o mineral. Enquanto não há decisão judicial e o estoque das companhias durar, a orientação prática segue a mesma de sempre: escovar os dentes ao menos duas vezes ao dia, hábito que por si só já previne cáries e doenças gengivais, como lembra a reportagem. Se a suspensão for confirmada na sua cidade, redobrar a atenção à escovação de crianças e idosos é a medida de proteção mais simples.