A dívida do governo federal chegou a 82,5% do PIB (a soma das riquezas que o país produz em um ano) em julho, o maior patamar desde abril de 2021, segundo dados do Banco Central citados pelo Poder360 e confirmados por O Globo e CNN Brasil. Para o bolso, isso significa juro mais alto: analistas ouvidos pelo g1 avaliam que os déficits seguidos pressionam a taxa de juros, que define o preço das parcelas de casa, carro e cartão. É com esse número na mesa que os dois líderes das pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), apresentam planos diferentes para as contas públicas, a quatro semanas do primeiro turno.
Para dimensionar a dívida, imagine uma família que ganha R$ 5.000 por mês, ou R$ 60 mil por ano: ela deveria R$ 49,5 mil. Desde o início do atual governo, em 2023, o endividamento subiu 10,8 pontos porcentuais, o equivalente, nessa conta caseira, a cerca de R$ 6,5 mil de dívida extra em menos de quatro anos. Um levantamento do Poder360 publicado neste domingo (6.set.2026) compara o que cada candidato propõe, e economistas ouvidos pelo site avaliam que nenhum dos dois planos basta para mudar a trajetória da dívida.
O plano de cada candidato
Lula quer manter o arcabouço fiscal, a regra que limita o crescimento das despesas, e fazer o ajuste pelo lado da arrecadação, contando com crescimento da economia, eficiência do gasto e mais tributos. O programa promete manter e ampliar a proteção social (Bolsa Família, BPC, habitação e Pé-de-Meia) e elevar os investimentos públicos. O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman resume a crítica ao chamar o conjunto de "Orçamento frouxo", com pouca preocupação em conter as despesas.
"O arcabouço implementado, além de insuficiente, não traz consequências quando desrespeitado. É como se não existisse", disse o economista-chefe da Forum Investimentos, Bruno Perri.
Flávio Bolsonaro parte para o lado oposto: uma nova regra fiscal, superávits primários (arrecadar mais do que gastar, antes de pagar juros) e um "tesouraço" na máquina, com pelo menos 10 ministérios a menos, corte de cargos comissionados (postos de confiança sem concurso) e combate aos penduricalhos, as vantagens extras no salário de servidores. O plano ainda retomaria privatizações e a reforma administrativa. Segundo o Poder360, o documento não diz quanto seria economizado e ainda promete dobrar os investimentos em segurança pública e reduzir impostos, o que aumenta as dúvidas sobre a efetividade dos cortes.
Entenda: a dívida bruta soma tudo o que o governo federal deve, e o arcabouço fiscal é a regra criada para segurar o crescimento das despesas dentro de um limite. Nos últimos anos, o governo abriu espaço para gastos fora desse limite, o que fragilizou a credibilidade da regra. Perri acrescenta outro problema nas contas de Flávio: privatizações são receitas não recorrentes, porque os ativos são vendidos uma vez só.
Receita recorde e dívida em alta
O aperto convive com arrecadação recorde: o governo federal deve arrecadar R$ 3,24 trilhões neste ano, 23,7% do PIB, o maior patamar da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 1997, superando o recorde de 2010 (23,6% do PIB), do 2º mandato do próprio Lula. Na tradução do dia a dia, para cada R$ 100 de riqueza produzida no país, R$ 23,70 vão ao caixa federal, contra uma média de R$ 21,40 nos 29 anos anteriores, segundo o g1. Mesmo assim, a economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, avaliou que 2026 deve fechar com déficit primário perto de 0,5% do PIB, pior que 2025; o orçamento proposto para 2027 prevê superávit de R$ 18,6 bilhões, menos de 1% da receita anual.