A Selic, a taxa que define o custo do dinheiro no Brasil, caiu de 14% para 13,75% ao ano na noite de quarta-feira (16). O corte de 0,25 ponto percentual, aprovado por unanimidade pelo Copom, comitê de juros do Banco Central, é o quinto seguido desde que o ciclo foi retomado em abril e era esperado pelo mercado. Para o bolso, o efeito chega devagar: juros de financiamentos, cartões e empréstimos tendem a cair aos poucos.
Um ano atrás, a Selic estava em 15% ao ano, patamar mantido de junho de 2025 a março deste ano e o mais alto em quase duas décadas, segundo a Agência Brasil. Mesmo assim, o crédito continua caro: a Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que o juro real, o que sobra depois de descontar a inflação, está em torno de 9% ao ano, uns 4 pontos acima da taxa neutra de 5% estimada pelo próprio BC, o nível que nem acelera nem esfria a economia. Na avaliação da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a Selic segue entre as mais altas do mundo.
A inflação ajuda; o mundo, atrapalha. Os preços medidos pelo IPCA, o índice oficial, caíram 0,32% em agosto, o menor nível em quatro anos, puxados pelo bônus de Itaipu nas contas de luz e pela queda de 0,34% nos alimentos, o equivalente a R$ 99,66 numa compra de R$ 100. Em 12 meses, a inflação recuou para 4,22%, de 4,44% em julho, mas a guerra no Oriente Médio e o início do fenômeno climático El Niño, que tende a encarecer a comida, mantêm o BC em cautela.
"O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities", diz o comunicado do Copom, citado pela Agência Brasil.
Entenda: a Selic é a taxa básica de juros da economia, usada nas negociações de títulos públicos e referência para todo o resto, do cheque especial ao financiamento imobiliário. O Copom, comitê de diretores do Banco Central, a define em reuniões periódicas: subir a taxa encarece o crédito e esfria o consumo, o que ajuda a derrubar a inflação, e cortar faz o contrário. A meta de inflação é de 3%, com intervalo entre 1,5% e 4,5%, e desde janeiro de 2025 é verificada mês a mês pela inflação acumulada em 12 meses, no sistema de meta contínua.
O que vem depois
O comunicado mudou pouco em relação ao anterior, e o Valor Econômico resume o recado: o BC deixou a porta aberta para novos cortes, sem compromisso, e o mercado se divide entre prever uma pausa e apostar em mais uma redução na reunião de novembro. A inflação projetada segue acima do teto da meta: o Focus, pesquisa semanal do BC com instituições financeiras, estima 4,9% em 2026, contra 5,2% previstos pelo próprio banco, número que será revisado no fim do mês. Depois da decisão, o dólar caiu 0,06%, para R$ 5,1512, e a bolsa brasileira recuou 0,51%, para 185.548 pontos, segundo o G1.
O comitê decidiu desfalcado: os mandatos dos diretores Renato Gomes e Diego Guillen expiraram no fim de 2025, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não encaminhou substitutos ao Congresso. Indústria e centrais sindicais receberam o corte como insuficiente. "É essencial que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de redução da Selic", disse Ricardo Alban, presidente da CNI; a CUT classificou a queda de "um passo importante, mas insuficiente", e a Força Sindical falou em "balde de água fria" para o último trimestre do ano.