Um levantamento do Estadão, publicado no domingo (6), identificou ao menos 40 contas de influenciadores que não costumam falar de política pedindo voto para Augusto Cury, escritor de autoajuda candidato à Presidência pelo Avante. A reportagem de Bianca Gomes e Guilherme Caetano também mostra que a campanha recebe ajuda de dois profissionais ligados a Pablo Marçal, coach e influenciador digital candidato ao Planalto pelo PRTB.
Segundo o jornal, os perfis publicaram vídeos pedindo voto ou elogiando o candidato entre 26 e 29 de agosto. São contas dedicadas a finanças, vida saudável, empreendedorismo, humor, beleza, automobilismo, religião e maternidade. Algumas têm poucos milhares de seguidores. Muitas usam a mesma hashtag com o nome de Cury e a mesma imagem, com a foto dele e o número 70 na urna.
Alguns perfis admitem nunca ter falado de política antes. "Eu vou votar nele, todos os vídeos que eu passo só tem esse cara, eu nem quero nem saber o que ele faz", diz uma conta de humor com 14,3 mil seguidores. "Não irei revelar que meu voto é 70", afirma um perfil de variedades seguido por 119 mil pessoas. Uma influenciadora de beleza e vida fitness, com 661 mil seguidores, declarou: "Nunca em todos estes anos eu falei de política, nunca me posicionei politicamente. Mas esse cara me deu esperança."
Onda nas redes, salto nas pesquisas
A onda começou no dia 26 de agosto, segundo o Estadão, quando os seguidores de Cury no Instagram passaram de 8,4 milhões para 10,7 milhões em dois dias. A Gazeta do Povo relatou, com base na plataforma de monitoramento Sólon, que a mobilização ganhou força no dia 25, quando o escritor tinha 8,4 milhões de seguidores.
As pesquisas registraram a disparada em seguida. Na Nexus/BTG, divulgada em 31 de agosto, Cury saltou de 2% para 11% e assumiu o terceiro lugar. Na Atlas/Bloomberg, passou de 1,6% para 7,8%. Na Quaest de 2 de setembro, apareceu com 10%, isolado na frente dos demais candidatos fora do eixo entre o PT de Lula e o PL de Flávio Bolsonaro.
Elos com Marçal
O Estadão aponta que a campanha conta com a ajuda de Filippe Neto, sócio de Marçal, e de Nahuel Gómez Medina, assessor do coach. Medina agrediu Duda Lima, então marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB), durante um debate eleitoral em 2024. Lima hoje trabalha na campanha de Flávio Bolsonaro (PL).
Cury e Marçal dividiram o palco no início de julho, no evento O Código da Voz, sobre neurociência e influência. O ingresso mais caro custou R$ 5.497, segundo o site do evento. Neto, que afirma ter Marçal como padrinho de casamento, foi um dos palestrantes. Em seu Instagram, ele diz ter criado o slogan "O Brasil tem Cura. O Brasil tem Cury", adotado pela campanha do Avante. Marçal registrou a própria candidatura à Presidência pelo PRTB em 15 de agosto, mesmo estando inelegível, segundo o Poder360.
O candidato a vice na chapa, o ex-deputado federal Júlio Delgado (PRTB), disse ao jornal Valor Econômico, em entrevista repercutida pelo Poder360 na quarta-feira (2), que o apoio de pessoas ligadas a Marçal foi "orgânico e espontâneo".
"Existe uma conversa de que o Marçal tem relação pessoal com o doutor Augusto Cury, mas, com a campanha, ele não tem participado de forma ostensiva. Você pode falar que ele coloca influenciadores que lhe são ligados. Eventualmente pode ser, mas se isso for de forma orgânica e espontânea", afirmou Delgado.
Delgado disse que a campanha impulsionou entre R$ 20 mil e R$ 25 mil em publicações na semana anterior, com dinheiro doado pelo próprio Cury, até agora o único doador. Segundo ele, Cury tinha uma base orgânica de 8,5 milhões de seguidores no Instagram e cresceu 30%. Para o vice, o avanço ocorre porque "as pessoas estão saturadas da polarização entre Lula e Bolsonaro". Profissionais ligados à campanha descreveram o movimento como espontâneo, segundo o Estadão.
O primeiro turno da eleição presidencial está marcado para 4 de outubro. As próximas pesquisas vão mostrar se a onda nas redes se sustenta até a votação.