O Super El Niño pode provocar cerca de 451 mil mortes adicionais no mundo até fevereiro de 2027, em comparação com um ano normal, segundo projeção do Laboratório de Impactos do Clima (Climate Impact Lab) da Universidade de Chicago, publicada em setembro e divulgada no Brasil pelo Jornal Nacional. O Brasil aparece em quinto lugar entre os países mais afetados, com 13,3 mil mortes em excesso projetadas. Segundo a CNN Brasil, cerca de 8 mil desses óbitos se concentrariam apenas entre dezembro e fevereiro, quando o verão do Hemisfério Sul soma calor ao fenômeno.
O ranking global é liderado pela Nigéria, com 31,4 mil mortes projetadas, seguida por Indonésia (19,3 mil), Sudão (17,5 mil) e Índia (15,8 mil). O Metrópoles reporta que o Sahel africano deve somar 66,8 mil mortes adicionais e que o Sudeste Asiático deve registrar outras 19,4 mil nas Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja. Para dar uma escala, o total global equivale a cerca de 65 vezes as 6,8 mil pessoas mortas ou desaparecidas nas enchentes recentes no Nepal. O estudo calculou a relação entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões do mundo, comparando as temperaturas previstas com a média de 1996 a 2025. Os números são projeções de mortalidade em excesso, e não uma contagem de mortes já ocorridas.
El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial. Segundo o g1, o fenômeno se intensifica rapidamente, o número de dias de calor tórrido deve aumentar 44% em relação a um ano normal e o pico está previsto para o fim de 2026. A CNN Brasil acrescenta que a temperatura média global deve ficar 1,2°C acima do normal nos próximos meses. O climatologista Theodore Keeping, do Imperial College London, explica que o fenômeno modifica os padrões climáticos locais, o que afeta a produção de alimentos e pode definir se as populações enfrentarão inundações ou estresse térmico extremo. "É um multiplicador de riscos, e esperamos ver impactos na saúde em todo o mundo", disse Teresa Zakaria, chefe da Unidade de Redução de Riscos, Operações Humanitárias e Mudanças Climáticas da OMS. Entre as ameaças listadas pelo g1 estão doenças causadas pelo calor, problemas respiratórios, desnutrição, cólera e enfermidades transmitidas por mosquitos, como malária e dengue.
O alerta já está no campo brasileiro
No Brasil, o fenômeno já produz efeitos concretos. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), há mais de 90% de probabilidade de o evento ser classificado como muito forte entre setembro e novembro, exatamente o início da estação chuvosa. No Sul de Minas Gerais, um dos principais polos cafeeiros do país, uma tempestade com granizo atingiu Varginha e municípios vizinhos em 15 de setembro, com 22,6 milímetros de chuva em uma hora. A Associação dos Sindicatos Rurais do Sul de Minas (Assul) estima cerca de 200 propriedades atingidas e perdas iniciais de pelo menos R$ 50 milhões. O climatologista Ruibran dos Reis, diretor regional da Climatempo em Belo Horizonte, afirma que o El Niño está estabelecido desde meados de maio e que a temperatura do Pacífico equatorial já está 2,7 graus acima do normal, o que, segundo ele, pode ter influenciado o temporal.
Os danos ainda estão sendo medidos. A cooperativa Cooxupé informou ao Metrópoles Minas que técnicos estão em campo para dimensionar as perdas, e um levantamento da Emater-MG citado pela reportagem mostra que o Sul de Minas concentrou 66% das perdas climáticas registradas no café de sequeiro. Em julho, o Sistema Faemg/Senar calculava que apenas 30% da colheita havia sido concluída na região. Em Belo Horizonte, a Defesa Civil iniciou treinamentos para o período chuvoso 2026/27, segundo o Metrópoles. O cenário ecoa o alerta de Keeping: as mesmas chuvas irregulares que atingem o cinturão cafeeiro pressionam a produção de alimentos da qual dependem mercados e mesas no mundo inteiro.
Parte das mortes pode ser evitada
Parte das mortes projetadas pode ser evitada com medidas de adaptação ao calor, segundo Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e professor da Universidade de Chicago. "Este relatório permite que os tomadores de decisão vejam exatamente onde ações emergenciais podem ser tomadas agora para salvar dezenas de milhares de vidas nos próximos meses", afirmou. O documento lista medidas como sistemas de alerta precoce de calor, centros de resfriamento e pontos de hidratação, proteção de trabalhadores expostos ao calor e reforço da capacidade dos sistemas de saúde.
"Há muito tempo, conseguimos prever os impactos das temperaturas nas colheitas, e agora podemos prever o impacto no pior cenário possível: a morte."
disse Greenstone na divulgação do relatório, citado pelo Metrópoles. Para os pesquisadores, o Super El Niño funciona como um "cartão-postal do futuro": as temperaturas esperadas para os próximos meses se aproximam de patamares que o aquecimento global só deveria alcançar nas próximas duas décadas. O g1 e a CNN Brasil situam a janela central da projeção entre junho de 2026 e fevereiro de 2027; o Metrópoles reporta que o laboratório estende o cálculo por nove meses, até meados de 2027, e o próprio relatório admite que os efeitos sobre a mortalidade podem continuar depois do período analisado, sobretudo em regiões que entram no verão nos meses seguintes.