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Estudo mapeia proteínas do cérebro e aponta caminho para tratar formas graves de autismo

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Um estudo publicado nesta quinta-feira (27) na revista Science descreve como mutações genéticas associadas a formas graves de autismo alteram a forma como as proteínas interagem nas células do cérebro em desenvolvimento. O trabalho, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), produziu o que os autores apresentam como o maior mapa molecular do autismo já feito e abre caminho para testar medicamentos contra a condição, segundo reportagens da Folha de S.Paulo, em parceria com o The New York Times, e da publicação especializada Genetic Engineering and Biotechnology News (GEN).

A equipe, liderada pelo Quantitative Biosciences Institute (QBI) e pelo departamento de psiquiatria da UCSF, mapeou as proteínas codificadas por 100 genes ligados ao autismo e identificou mais de 1.800 interações entre elas, das quais 87% não haviam sido descritas antes. Os pesquisadores analisaram ainda 54 mutações encontradas em pacientes e cruzaram esses dados com modelos estruturais do AlphaFold e com experimentos em organoides de cérebro humano e em embriões de Xenopus, um sapo usado em pesquisa. Com isso, conseguiram apontar exatamente onde cada mutação quebra as conexões entre proteínas.

O achado central do estudo é a convergência: mutações em genes diferentes podem desorganizar o mesmo complexo de proteínas. Em um exemplo citado no trabalho, mutações nos genes FOXP1 e FOXP2 perturbam a mesma interação entre as proteínas FOXP1 e FOXP4, o que acelera o amadurecimento de neurônios do córtex e aumenta a excitabilidade dos circuitos neurais nos organoides. A implicação prática é que, no futuro, um único remédio poderia tratar várias formas genéticas distintas de autismo, em vez de exigir uma terapia diferente para cada mutação.

O resultado interessa sobretudo ao chamado autismo profundo. Em cerca de 30% das pessoas com autismo, aquelas com as deficiências mais severas, os cientistas já identificaram mutações raras em um único gene que provavelmente estão associadas ao transtorno. "Este estudo mapeia a maquinaria molecular exata que está alterada, incluindo as interações específicas entre proteínas, até as interfaces que podemos atingir com um medicamento", disse à GEN Nevan Krogan, diretor do QBI e pesquisador do Gladstone Institutes. Matthew State, chefe do departamento de psiquiatria da UCSF e autor sênior do estudo, afirmou que o trabalho "abre um novo mundo de possibilidades de alvos terapêuticos".

O que é dado confirmado e o que ainda é hipótese

É importante separar os dois planos. O que o estudo entrega de forma sólida é o mapa em si: as interações entre proteínas e os pontos exatos em que as mutações as rompem, observados em laboratório. O que permanece preliminar é a promessa terapêutica. Nenhum medicamento foi testado em pacientes a partir desses resultados, e organoides cultivados em laboratório reproduzem apenas parte do funcionamento de um cérebro. Dan Geschwind, neurogeneticista da UCLA que não participou do trabalho, resumiu o estágio atual à Folha: "Isso equivale a mapear territórios desconhecidos, o que é realmente necessário para fazer a biologia avançar."

Para as famílias brasileiras, a recomendação prática não muda. O cuidado hoje disponível continua sendo o diagnóstico precoce e intervenções com evidência científica, como terapias comportamentais, fonoaudiológicas e ocupacionais, além do acompanhamento regular. Resultados como os deste estudo indicam um caminho de pesquisa promissor, reforçado por um financiamento de US$ 46 milhões que o QBI recebeu da iniciativa Aligning Research to Impact Autism (ARIA) para transformar o mapa em moléculas candidatas a remédio, mas qualquer tratamento concreto ainda está a anos de distância. Até lá, a cautela vale também para terapias sem comprovação que prometem cura do autismo: nenhuma droga aprovada hoje trata as causas genéticas da condição.

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