Um ex-pesquisador de integridade e segurança da Meta afirmou em depoimento à Justiça dos Estados Unidos que a empresa ordenou, "em mais de uma ocasião", a exclusão de evidências sobre assédio e exploração sexual de menores em suas plataformas. A revelação é de Jason Sattizahn, que trabalhou na unidade de realidade virtual da dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, e foi reportada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (26), no mesmo dia em que a companhia fechou um acordo de até US$ 17,1 bilhões (cerca de R$ 88 bilhões) com 47 estados americanos, o Distrito de Columbia e territórios do país.
Segundo o depoimento, tornado público no dia 18, houve ordem direta para eliminar "rastros documentais" que colocassem as marcas da empresa em risco. Em linguagem simples, a acusação é de que a Meta tratou registros internos como recibos comprometedores: papel para queimar antes de a fiscalização bater à porta. Sattizahn já tinha testemunhado no Senado americano em 2025, quando relatou ter visto casos de abuso infantil em ambientes de realidade virtual e dito que a empresa bloqueou pesquisas sobre o tema.
A linha do tempo ajuda a entender o incentivo em jogo. De acordo com o ex-funcionário, a Meta passou a encarar investigações sobre danos a jovens "como riscos para a marca" depois que a delatora Frances Haugen vazou relatórios internos no fim de 2021, incluindo estudos sobre efeitos nocivos das redes na saúde mental de adolescentes. O modelo de negócio da companhia é vender atenção: quanto mais tempo de tela, mais anúncios. Documentos que mostrem que o produto vicia crianças ou as expõe a predadores são uma ameaça direta a essa engrenagem, porque viram munição para júris e reguladores.
A versão da Meta e o acordo bilionário
A empresa rejeita as acusações. "Pesquisas não mostraram uma ligação clara entre o uso de redes sociais por adolescentes e a falta de bem-estar", afirmou à Folha o advogado da companhia, Paul Schmidt. O acordo anunciado nesta quarta põe fim, na prática, ao julgamento que corria no Tribunal Distrital americano em Oakland, na Califórnia, onde Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey pediam cerca de US$ 200 bilhões. A ação reunia 29 estados e acusava a Meta de desenhar Facebook e Instagram para viciar jovens, enganar o público sobre a segurança das plataformas e coletar dados de menores de 13 anos de forma irregular. Na primeira semana do julgamento, o júri já havia ouvido outros dois ex-funcionários, o engenheiro Arturo Béjar e a pesquisadora Elena Davis, segundo o The National News Desk.
O que ainda não sabemos
Por enquanto, o que existe é a palavra de Sattizahn sob juramento. Não se sabe quais documentos foram apagados, quem dentro da hierarquia deu a ordem, nem se os registros podem ser recuperados. A Meta não admitiu irregularidades no acordo, e acordos desse tipo costumam vir com cláusulas de sigilo que podem manter parte das respostas longe do público. Também não está claro se outras testemunhas confirmam a versão dele.
O que vale acompanhar daqui para frente: os termos finais do acordo, que devem detalhar mudanças de produto como limite de tempo de uso e um "modo escola" no Instagram; a eventual divulgação do depoimento completo; e os desdobramentos no Brasil, onde o governo já corre atrás de TikTok e Discord por falhas na proteção de crianças. Se a acusação de destruição de provas se confirmar, o caso muda de natureza e passa a envolver também uma possível obstrução de Justiça.