O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, alertou nesta segunda-feira (24) para o avanço de modalidades de crédito caras e sem garantia em um cenário de endividamento elevado das famílias brasileiras. Segundo o G1, o crescimento recente das dívidas tem sido puxado principalmente por linhas de crédito usadas para consumo e despesas fixas, o que preocupa a autoridade monetária. As declarações foram dadas na abertura do Febraban Tech 2026, evento de tecnologia do setor financeiro promovido pela Federação Brasileira dos Bancos.
De acordo com o Valor Econômico, Galípolo afirmou que não foi a alta dos juros básicos, hoje em 14,75% ao ano, que causou o superendividamento das famílias, mas o aumento da oferta de empréstimos, impulsionado entre outros fatores pela política oficial de crédito. A fala responde a setores do governo e do PT que atribuem ao aperto monetário do BC o comprometimento da renda da população com dívidas, apesar do desemprego baixo e dos ganhos reais de salário. Para o presidente do BC, a relação é inversa: com a Selic mais baixa, o endividamento cresce; com juros altos, o crédito é inibido. Ele apresentou um gráfico que associa a alta do endividamento a partir de 2020 à bancarização impulsionada pelo Pix, aos juros historicamente baixos e aos programas de crédito criados na pandemia e mantidos nos anos seguintes. "Não dá para ficar contente porque o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu", resumiu.
O endividamento avançou mesmo com a melhora do mercado de trabalho. Em junho, a taxa de desemprego caiu a 5,4%, o menor nível para o período, e em maio a renda disponível das famílias atingiu o recorde de R$ 822 bilhões, segundo o G1. Galípolo também exibiu trecho do Relatório de Política Monetária que atribui a alta recente ao crédito livre, com aumento dos atrasos no financiamento de veículos, no crédito pessoal não consignado e no consignado privado. Criado para trabalhadores com carteira assinada, o consignado CLT foi o maior fator recente de expansão do crédito às famílias: desde o lançamento, em março de 2025, o saldo saltou de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões.
Para Galípolo, a preocupação não está apenas no tamanho da dívida, mas no tipo de crédito contratado, conforme reportou o G1:
"Nem todo tipo de endividamento é um problema. Comprar uma casa, por exemplo, gera um ativo. O problema é quando a dívida é usada para algo que não se transforma em ativo, principalmente quando envolve juros elevados."
Cartão de crédito no radar do BC
Galípolo defendeu ainda mudanças de regulação para corrigir incentivos que, na avaliação dele, permitiram o crescimento acelerado das operações de cartão de crédito. Os dados apresentados no evento mostram que 37 milhões de brasileiros passaram a usar cartão entre 2020 e 2024. No mesmo período, os usuários com dívida sujeita a juros subiram de 34 milhões para 52,8 milhões, a renda comprometida com o cartão passou de 38,5% para 54% e a inadimplência saltou de 55% para 64,5%. Segundo o Valor, o BC examina regras para promover a oferta responsável de crédito e corrigir distorções do modelo, em que o prazo alongado para compras à vista e o parcelamento sem juros beneficiam clientes de alta renda, enquanto os custos são repassados em juros mais altos à população de baixa renda. Galípolo não detalhou as medidas, mas citou instrumentos macroprudenciais e a experiência internacional.
No mesmo evento, o presidente do BC comemorou o alto nível de confiança dos brasileiros no Pix, apontado em pesquisa Quaest citada na apresentação: 80% dizem confiar no sistema de pagamentos, à frente da Igreja Católica (76%) e das Forças Armadas (70%), enquanto 70% afirmam confiar no próprio cônjuge. "Em primeiro, como instituição... e cônjuge em quinto. Isso me preocupa", brincou. Segundo estudo do BC, o Pix já é usado por 148 milhões de pessoas físicas, o equivalente a 86% da população adulta, e por 12,8 milhões de empresas.