A dívida pública brasileira deve alcançar 89,6% do PIB em 2029, segundo projeções revisadas do Tesouro Nacional reportadas pela Folha de S.Paulo. Traduzindo: de cada R$ 100 de riqueza que o Brasil produz em um ano, quase R$ 90 estarão comprometidos com o que os governos devem. Para o contribuinte, a conta tende a chegar como mais espaço do Orçamento consumido por juros e menos sobrando para saúde e educação.
Os números constam das informações complementares ao PLOA, o projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 que organiza as contas do ano seguinte, encaminhadas ao Congresso na sexta-feira (18). No novo cenário, a dívida bruta fecha 2026 em 83,7% do PIB e chega a 89,7% em 2030. Em escala doméstica, é como se uma pessoa que ganha R$ 5 mil por mês, ou R$ 60 mil por ano, passasse a dever R$ 53,8 mil.
Entenda: a DBGG, sigla de dívida bruta do governo geral, soma tudo o que a União, os estados, os municípios e a Previdência devem, sem descontar os ativos. Ela é medida como proporção do PIB, o valor de todos os bens e serviços produzidos no país em um ano. Quanto maior a proporção, mais risco enxergam os credores e mais caro fica ao governo tomar dinheiro no mercado.
Por que a dívida cresce
Segundo a Folha, a equipe econômica atribui a alta a dois fatores: a regularização de despesas represadas no governo de Jair Bolsonaro (PL), como os precatórios, as dívidas judiciais que a União paga após sentença da Justiça, e o nível da Selic, a taxa básica de juros definida pelo Banco Central. A Selic afeta diretamente a remuneração de metade dos títulos da dívida emitidos pelo Tesouro. Com juro maior, renovar a dívida fica mais caro a cada ano.
Herança para o próximo presidente
Pelas contas do Tesouro, o próximo mandato presidencial também terá alta do endividamento, só que mais lenta: 6 pontos percentuais em quatro anos, contra os 12 pontos do mandato de Lula, que começou com a dívida em 71,7% do PIB. Há uma condição de piora. Se o resultado das contas ficar no piso da meta fiscal, o limite mais frouxo da faixa de resultado que o governo se compromete a entregar, a dívida passa dos 90% do PIB em 2029.
O ritmo de expansão dos gastos federais e o uso de recursos financeiros para ampliar o crédito subsidiado já vinham sendo criticados por especialistas e agentes do mercado financeiro. Agora, segundo o jornal, a trajetória da dívida virou tema central do debate econômico da campanha eleitoral. Até este domingo (20), os números do Tesouro haviam sido detalhados apenas pela reportagem da Folha.