O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou na quinta-feira (17) que o Sistema Único de Saúde (SUS) vai oferecer gratuitamente as chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis usados no tratamento da obesidade. A entrega será mediante prescrição médica e seguirá critérios clínicos definidos pelo Ministério da Saúde. O anúncio foi feito durante visita ao novo complexo industrial da farmacêutica Eurofarma, em Montes Claros (MG), ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Segundo a Veja, a oferta ainda não tem data para começar: o protocolo clínico e os critérios de indicação serão finalizados pelo ministério. Em discurso na fábrica, Lula resumiu a proposta:
"Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar de graça das pessoas que tenham obesidade, quando o médico detectar que um homem ou uma mulher tem problema de saúde."
Padilha disse que a prioridade serão os pacientes com maior benefício esperado: pessoas com obesidade grave, doenças associadas ou indicação de cirurgia bariátrica. "Queremos a medicação no SUS. Como direito. Vamos deixar pronto o protocolo para colocar no SUS no país inteiro de forma responsável", declarou. Hoje, nenhum medicamento contra obesidade é distribuído pela rede pública, como mostrou reportagem do g1 em agosto; a principal oferta do SUS é a cirurgia bariátrica, com fila que pode levar anos.
Por que a oferta virou possível agora
O obstáculo sempre foi o custo. Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) negou os pedidos de inclusão da semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, e da liraglutida (Saxenda e Victoza), por impacto orçamentário estimado acima de R$ 8 bilhões. A expiração da patente da semaglutida, em março deste ano, abriu espaço para versões nacionais mais baratas. A endocrinologista Maria Edna de Melo, do Hospital das Clínicas da USP e membro da Abeso, calcula que o preço caiu de cerca de R$ 1,4 mil para cerca de R$ 330 em promoções. Em junho, a Novo Nordisk apresentou novo pedido à Conitec, com desconto de 59% no valor de referência e acesso restrito a pacientes acima de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto. A fábrica visitada por Lula produz o Poviztra, semaglutida da Eurofarma em parceria com a Novo Nordisk, lançada em outubro de 2025 ao preço de R$ 400 a R$ 1.100, conforme a Veja.
Desde o fim de junho, o ministério também conduz o estudo Real-Bari, em um hospital de Porto Alegre (RS): 250 pacientes com obesidade grave que aguardam na fila da bariátrica recebem as canetas de graça. O objetivo, segundo a pasta, é avaliar como o tratamento se adapta à realidade do SUS e o custo da terapia.
Contexto eleitoral e o que fazer agora
A obesidade atinge 25,7% dos adultos brasileiros, ante 11,8% em 2006, segundo o Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde. O anúncio chega a 17 dias do primeiro turno da eleição presidencial. O candidato à Presidência Ronaldo Caiado disse, segundo o UOL, que a promessa tem "aparência de populismo". O próprio Lula, segundo o Poder360, pediu responsabilidade na distribuição, afirmou que "não pode ficar receitando caneta a torto e a direito", advertiu contra candidatos "jogando caneta pro povo" e lembrou que parte dos casos exige reeducação alimentar.
Na prática, nada mudou ainda na rede pública. Enquanto o protocolo não é publicado, as canetas continuam disponíveis apenas na rede privada, com receita e acompanhamento médico. Quem vive com obesidade pode procurar a unidade básica de saúde do bairro para acompanhamento e, nos casos graves, avaliação para a cirurgia bariátrica. A semaglutida exige prescrição e monitoramento de efeitos adversos, e não deve ser usada por conta própria.