Pelo menos 554 vídeos e imagens do tipo deepfake circularam nas redes sociais durante a campanha do primeiro turno das eleições de 2026, embora a prática seja proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número é do projeto VigIA, da agência de checagem Lupa, que monitora o uso de inteligência artificial no pleito em parceria com o laboratório Recod.ai, da Unicamp. Entre 16 de agosto e 28 de setembro, o projeto confirmou 920 publicações criadas ou editadas com IA, uma média de quase uma por hora. Os deepfakes respondem por 60% delas.
Deepfake funciona como uma máscara digital: a inteligência artificial veste o rosto e a voz de uma pessoa real sobre um roteiro inventado, e ela passa a dizer ou fazer coisas que nunca aconteceram. Entre os casos mais recorrentes estão vídeos em que jornalistas da TV Globo, como César Tralli, William Bonner e Renata Lo Prete, aparecem "anunciando" pesquisas eleitorais e resultados inexistentes. Só com profissionais da emissora foram ao menos 30 peças. Celebridades como a cantora Ana Castela e o apresentador Luciano Huck também tiveram a imagem manipulada para simular apoio a candidatos. "O jornalismo e os jornalistas têm muita credibilidade, e os desinformadores sabem disso. A repetição dessa estratégia indica que ela funciona para enganar os eleitores", afirmou Cristina Tardáguila, fundadora da Lupa.
Quem está por trás
A maioria das peças falsas, 525, partiu de usuários comuns, muitos deles anônimos. Outras 29 foram publicadas por perfis de candidatos ou partidos, o que pode render sanções eleitorais que vão de multa até a cassação da candidatura ou do mandato. Para configurar a infração, porém, o TSE exige que o conteúdo seja propaganda política e tenha verossimilhança suficiente para enganar o eleitor.
"Se a gente quer bloquear de toda maneira a publicação de deepfakes pelo risco que impõe ao entendimento das pessoas sobre os eventos políticos, a gente precisa considerar que a maior parte desses conteúdos tem partido de contas de usuários e de avatares anônimos. Aqui a Justiça precisaria trabalhar com as plataformas para tentar identificar essas pessoas", disse Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório.
O relatório aponta ainda uma segunda irregularidade em larga escala. A lei eleitoral permite o uso de IA na campanha desde que a peça venha rotulada, mas só 371 das 920 publicações (cerca de 40%) traziam a sinalização. Entre as 549 irregulares, 75 foram feitas por candidatos ou partidos. Para Tardáguila, os números mostram que a IA "já faz parte da comunicação política cotidiana, e não só de episódios isolados".
Alvos e plataformas
O presidente Lula, candidato à reeleição, foi a figura mais retratada, presente em 379 publicações: 39% de humor ou sátira e 34% de ataques à sua candidatura. Seu adversário no segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL), apareceu em 190, sendo 40% para favorecê-lo. A promoção de candidaturas foi a finalidade mais comum (414 casos, 45%), seguida por ataques (cerca de um quarto) e sátira. No mapa das plataformas, Facebook (559 ocorrências) e Instagram (365), ambos da Meta, concentram a maioria dos registros, seguidos por X (96), TikTok (70) e WhatsApp (3). Como uma mesma peça pode circular em mais de uma rede, os números não somam o total de casos.
O que ainda não sabemos
Os 554 deepfakes são um piso, não um teto. O VigIA trabalha com o que chega por denúncias de leitores e buscas da própria equipe, e metade do universo coletado (1.941 publicações suspeitas) ainda aguarda análise. Áudios ficaram de fora por limitação metodológica, e o WhatsApp, onde a criptografia impede a varredura, aparece com apenas três casos, o que diz mais sobre a dificuldade de enxergar o aplicativo do que sobre a circulação real ali. O relatório também não mede alcance: não é possível saber quantas pessoas viram cada peça ou mudaram de voto por causa dela. Vale lembrar o incentivo em jogo: as plataformas lucram com engajamento, que conteúdo falso e emocional costuma gerar, enquanto detectar e remover deepfakes em escala é custo, não receita.
Na prática, a defesa do eleitor segue artesanal. Desconfie de vídeos em que jornalistas conhecidos "noticiam" pesquisas ou resultados fora dos canais oficiais das emissoras, procure o rótulo de conteúdo gerado por IA e cheque com agências de verificação. A Lupa mantém um canal de WhatsApp para receber denúncias de conteúdo suspeito, e o VigIA seguirá monitorando as redes até o segundo turno, em 25 de outubro.