O modelo de clima dos Estados Unidos e o europeu ECMWF convergem, nas atualizações da primeira semana de setembro, para um pico do El Niño de 2026 entre novembro e dezembro, com anomalia de temperatura da superfície do mar em torno de +4°C na região Niño 3.4, no Pacífico equatorial central. A análise é da MetSul Meteorologia, divulgada nesta quinta-feira (10). No mesmo dia, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos Estados Unidos) elevou para 97% a chance de o fenômeno alcançar o patamar muito forte já no fim de setembro, contra 93% na projeção do mês passado, segundo a Folha de S.Paulo.
O último boletim semanal da NOAA mede +2,7°C de anomalia na região Niño 3.4 pelo índice ONI, o usado oficialmente para definir o fenômeno. Valores iguais ou superiores a +2°C configuram um El Niño muito forte, popularmente chamado de Super El Niño. A agência americana adotou neste ano um segundo índice, o RONI, que desconta o aquecimento de longo prazo dos oceanos tropicais; por esse critério, a anomalia é de +1,8°C, na faixa de evento forte. O fenômeno começou em junho, com o aquecimento acima da média das águas do Pacífico na linha do Equador, próximo à costa do Peru.
Um setembro sem precedentes no Pacífico
Em comparação histórica, nunca um setembro encontrou o Pacífico tão quente. Na primeira semana do mês, a anomalia era de 1,6°C em 2023, 1,7°C em 2015, 2,1°C em 1997 e 0,6°C em 1982, segundo levantamento da MetSul com dados da NOAA. O maior valor semanal já medido em um El Niño foi 3,0°C, na semana de 18 de novembro de 2015, seguido por 2,6°C na semana de 29 de dezembro de 1982. Em 2026, a marca de +2°C foi cruzada já na semana de 8 de julho. Em 1982 isso só ocorreu em 24 de novembro, em 1997 em 3 de setembro e em 2015 em 16 de setembro.
A velocidade do desenvolvimento é o que mais impressiona os meteorologistas que acompanham o fenômeno, segundo Luiz F. Nachtigall, meteorologista da MetSul e autor da análise. Se o pico próximo de +4°C se confirmar, o episódio superaria por larga margem os picos de todos os eventos do século 20 e entraria em território jamais observado em 170 anos de medições.
Probabilidades e ressalvas da NOAA
A NOAA calcula em 93% a probabilidade de a temperatura do Pacífico equatorial permanecer no patamar muito alto até janeiro. Para o trimestre de outubro a dezembro, atribui 75% de chance a um evento histórico.
"No trimestre de outubro a dezembro de 2026, há 75% de probabilidade de um evento histórico, que superaria a intensidade dos eventos anteriores de El Niño registrados desde 1950."
O comunicado da agência prevê que o El Niño continue se intensificando até o fim do ano e faz uma ressalva: um evento dessa magnitude aumenta a probabilidade de impactos típicos do fenômeno, mas não garante que as consequências sejam mais graves que o normal. Os efeitos já aparecem. A Indonésia enfrenta seca extrema que facilita incêndios florestais e sufoca o país com fumaça; em Palembang, na província de Sumatra do Sul, bombeiros combatiam frentes de fogo nesta semana. O acompanhamento continua, com atualizações mensais dos modelos e boletins semanais da NOAA sobre a temperatura do Pacífico.