O número de mortos na enxurrada que atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26) subiu de cerca de 19, no primeiro balanço divulgado horas após o desastre, para 157, segundo nova atualização da polícia do Nepal repassada pela BBC News Brasil. No país, outras 579 pessoas seguem desaparecidas. No lado tibetano, controlado pela China, as autoridades locais registraram 3 mortos e 265 desaparecidos, de acordo com o G1. Os números continuam sendo revisados à medida que equipes de resgate avançam por áreas de difícil acesso na cordilheira do Himalaia.
A tragédia começou quando um grande volume de gelo e rocha, que segundo o Departamento de Meteorologia e Hidrologia do Nepal pode ter se desprendido de uma geleira no lado tibetano, bloqueou o curso do rio Lhende. O represamento formado por detritos rompeu horas depois, liberando uma onda de lama e água que desceu o vale do rio Trishuli, na fronteira entre os dois países, destruindo casas, pontes, estradas e instalações de energia. A força da correnteza atingiu o distrito de Nuwakot e a cidade de Rasuwa, além de Syabrubesi, ponto de partida da rota de trekking do Langtang, muito frequentada por turistas.
Causa ainda em investigação
Os primeiros relatos apontavam um terremoto como gatilho da avalanche de gelo. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) chegou a registrar um tremor de magnitude 4,4 na região, mas horas depois se retratou: segundo a agência, "a energia sísmica foi, na verdade, gerada pelo próprio deslizamento de terra", e não o contrário. A pesquisadora de hidrologia do Imperial College Martha Day disse à BBC que, em terrenos íngremes e cobertos por geleiras como o do Himalaia, fenômenos perigosos costumam ocorrer em cadeia, com um aumentando a chance de outro acontecer. Cientistas ainda tentam reconstruir a sequência exata dos eventos usando imagens de satélite, mas as nuvens da estação de monções têm dificultado a análise.
O episódio reacende a atenção sobre o derretimento acelerado das geleiras na região do Hindu Kush Himalaia, processo que cientistas associam à mudança climática, embora ainda seja cedo para determinar seu peso específico neste desastre, segundo o correspondente de meio ambiente da BBC World Service Navin Singh Khadka. A região é descrita por autoridades chinesas como a "caixa-d'água da Ásia", berço de rios como o Brahmaputra, o Indo e o Ganges, dos quais dependem centenas de milhões de pessoas rio abaixo.
Resposta emergencial mobiliza milhares
O gabinete do primeiro-ministro do Nepal, Balen Shah, informou que 1.697 militares foram mobilizados nas buscas, com outros 656 de prontidão. Seis helicópteros militares resgataram 94 pessoas ao longo do dia, cinco aeronaves civis resgataram outras 12, e equipes terrestres salvaram mais 27, segundo o comunicado oficial. Cães farejadores e quatro drones também foram enviados às áreas mais afetadas. A polícia informou que 28 policiais seguem desaparecidos apenas no distrito de Rasuwa. O governo orientou a população a evitar margens de rios e áreas de risco enquanto durarem as buscas, que devem continuar durante a madrugada.
Do lado chinês, o presidente Xi Jinping determinou o reforço das operações de resgate na área de Gyirong, principal passagem terrestre entre o Tibete e o Nepal. A Índia enviou dez toneladas de ajuda humanitária ao país vizinho; em publicação nas redes sociais, o chanceler indiano, Subrahmanyam Jaishankar, disse que "a Índia está ao lado do Nepal e de seu povo". O Conselho de Turismo do Nepal soma 384 viajantes desaparecidos, sendo 341 estrangeiros, atingidos enquanto faziam trilhas na região. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou solidariedade às famílias das vítimas e aos governos do Nepal e da China; segundo o Itamaraty, não há registro de brasileiros entre os afetados até o momento.