Até R$ 42,3 bilhões. É o reajuste que o Orçamento de 2027 pode precisar para comportar as medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reta final da campanha: reforço do Bolsa Família, proibição das bets e Desenrola 3.0. A estimativa é do jornal O Globo e da InfoMoney, e significa menos margem de manobra para quem vencer a eleição de 4 de outubro no primeiro ano do próximo mandato.
A conta soma fatias com prazos diferentes. São R$ 22 bilhões de custo extra com o Bolsa Família em 2027, R$ 5,3 bilhões de receitas que deixam de entrar com o fim das apostas on-line e R$ 15 bilhões previstos para o Desenrola 3.0, que pode se estender até 2028. Nenhum desses valores estava na proposta orçamentária enviada ao Congresso Nacional em 31 de agosto.
No Bolsa Família, principal programa de transferência de renda do país, o reajuste de 15,04% elevou o piso do benefício de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro, ou R$ 91 a mais por mês para cada família que recebe o valor mínimo. O custo adicional em 2026 é de R$ 5,8 bilhões, porque o aumento vale só pelos últimos meses do ano. Em 2027, com 12 meses completos, sobe para R$ 22 bilhões, quase quatro vezes mais.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu o reajuste como recomposição das perdas pela inflação e afirmou que o governo já começou a revisar gastos para acomodar a despesa do próximo ano.
Entenda: o Orçamento da União é a lei anual que define quanto e em que áreas o governo federal pode gastar, e mudanças depois do envio ao Congresso precisam ser aprovadas por deputados e senadores. O caso atual pressiona as contas em duas frentes ao mesmo tempo: mais despesa com benefícios e programas, e menos arrecadação com o fim das bets. Mesmo que os novos gastos caibam no limite previsto pelas regras fiscais, a receita menor terá de ser compensada com outras fontes ou com cortes.
Fim das bets e Desenrola 3.0
A proibição das apostas on-line foi editada por medida provisória, norma que vale de imediato mas precisa de aprovação do Congresso em até 120 dias, publicada em edição extra do Diário Oficial na sexta-feira (25), nove dias antes da eleição, segundo o G1. Quem tem saldo nas plataformas pode sacar até as 23h59 de 5 de outubro, e a partir do dia 6 os sites e aplicativos saem do ar. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, estima perda de R$ 5,3 bilhões de receitas em 2027, menos de um décimo dos R$ 62,5 bilhões que as bets tiraram do bolso das famílias em 2025, segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
No Desenrola 3.0, a União vai comprar em leilão carteiras de dívidas de pessoas físicas, com desconto mínimo de 90%, e repassar o desconto aos devedores. O programa mira até R$ 150 bilhões em dívidas vencidas de até R$ 10 mil por operação, com teto de gasto de R$ 15 bilhões: para cada real de dívida comprada, o Estado gastaria no máximo dez centavos. Moretti disse que os desembolsos começam em 2027 e que o custo terá de respeitar as regras que limitam os gastos públicos.
Como o governo diz que vai pagar a conta
O governo afirma que vai acomodar as despesas dentro das regras fiscais por meio de remanejamento e revisão de gastos, o que exigirá definir quais áreas perderão recursos. A estratégia anunciada por Moretti é cortar despesas em outras frentes sem aumentar o gasto total. O efeito final sobre as contas públicas dependerá dos desembolsos efetivos e das compensações adotadas.