Vem sentar, que essa história pede um café. Segundo a Folha de S.Paulo, uma leva de contas estrangeiras ligadas ao ecossistema do presidente americano Donald Trump publicou conteúdo pago para divulgar a disparada de Flávio Bolsonaro (PL) nas apostas da Polymarket, empresa americana bloqueada no Brasil desde abril. Entre sexta-feira (18) e segunda (21), o jornal contou ao menos 11 usuários do X, antigo Twitter, espalhando a propaganda, às vezes com elogios explícitos ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para quem chegou agora: a Polymarket é um mercado de previsão, em que usuários apostam dinheiro no desfecho de eventos futuros, como a eleição brasileira. Os posts aparecem com o rótulo de "parceria paga", sem identificar quem paga a conta, e a imprensa americana já noticiou que a empresa tem o hábito de contratar influenciadores para propaganda. A Folha dividiu as contas em dois blocos: influenciadores alinhados a Trump e ao movimento MAGA, e perfis com estética jornalística que cobrem geopolítica, como as guerras em Gaza e na Ucrânia.
Quem está postando
Os nomes dão o tom. Um deles é o ex-deputado republicano Matt Gaetz, aliado de Trump com 3,4 milhões de seguidores, que chegou a ser indicado para a procuradoria-geral dos EUA e desistiu em meio a investigações de crimes sexuais, que ele negou ter cometido. "Flávio pode salvar o Brasil. Este é o grande prêmio nas Américas", escreveu Gaetz na segunda. Também publicou o anúncio a UHN Plus, com 1,2 milhão de seguidores, que opera da Flórida e produz conteúdo de direita.
O outro bloco aparece no Diário do Centro do Mundo: no domingo (20), perfis de "OSINT" que monitoram guerras, como Iran Observer e OSINTdefender, postaram quase ao mesmo tempo o mesmo gráfico da Polymarket, com Flávio em torno de 58% e o presidente Lula (PT) com 42%. O Iran Observer escreveu que Lula estaria "perdendo a eleição presidencial no Brasil" e que Flávio seria "muito pró-EUA", a ponto de retirar o país dos BRICS.
Aposta não é pesquisa
Aqui vai o aviso útil: os números da Polymarket mostram o preço de contratos negociados na plataforma, coisa bem diferente de uma pesquisa de intenção de voto, como explica o DCM. Para comparação, o Datafolha de quinta (17) deu 39% a Lula e 36% a Flávio no primeiro turno, com Lula à frente por 46% a 44% em um eventual segundo turno. Um levantamento do Aos Fatos, de 4 de setembro, já havia encontrado mais de 100 publicações ligadas à eleição brasileira divulgando a Polymarket no Instagram, com páginas de influenciadores e sites parceiros.
No campo eleitoral, a situação é delicada. A lei veda o impulsionamento de propaganda de candidatos por terceiros e proíbe doações estrangeiras, em dinheiro ou estimáveis em dinheiro. Procurada pela Folha, a campanha de Flávio respondeu que não tem conhecimento sobre os anúncios. A própria Polymarket lista o Brasil entre os países em que seus serviços são bloqueados e afirma proibir o uso de VPN para contornar a restrição.
Onde acompanhar: os posts seguem no ar no X, com a etiqueta "parceria paga" à mostra. Já o mercado da eleição brasileira na Polymarket não abre para quem navega do Brasil, já que a plataforma está bloqueada no país desde abril.