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Petróleo avança no litoral do Amapá e coloca manguezais e corais raros em alerta

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SMPor Sofia Menezes•18 de setembro de 2026•Fontes: G1, Gazeta Mercantil, G1 (MPF/Ibama)

A descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, e a autorização do Ibama para a Petrobras perfurar mais três poços no bloco FZA-M-59 consolidam o avanço do petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. A nova fronteira opera em frente a um dos litorais mais sensíveis do planeta, que reúne o maior corredor contínuo de manguezais do mundo e o Grande Sistema de Recifes da Amazônia, e o licenciamento já é alvo de questionamentos do Ministério Público Federal (MPF).

A Petrobras anunciou a descoberta em 14 de agosto. O poço foi perfurado em águas profundas, num ponto em que o mar chega a 2.886 metros. Segundo o Ibama, a campanha licenciada prevê quatro poços, com o Morpho como principal e três contingenciais, e atividades entre 2025 e 2029. Segundo o G1, a estatal planeja investir US$ 2,5 bilhões em 15 poços na Margem Equatorial até 2030 e levou uma amostra do óleo, descrito como leve, ao Rio de Janeiro para análise, enquanto testa o potencial comercial da jazida.

O que dizem MPF e Ibama

O MPF voltou a cobrar explicações do Ibama em pedido confirmado em 2 de setembro. Para o órgão, há divergência entre o que a autarquia declarou em audiência na Justiça Federal e o que consta nos documentos administrativos: em abril de 2025, representantes do instituto afirmaram que a atividade seria pontual, com duração de cerca de seis meses; em resposta recente, o Ibama informou que o projeto prevê quatro poços e operações até 2029. Para o MPF, a contradição compromete a transparência do processo e dificulta a avaliação de riscos, porque uma operação que se estende por anos no mar pode gerar impactos acumulados sobre a fauna marinha, a pesca artesanal e o modo de vida de comunidades tradicionais. O pedido foi encaminhado pelo grupo de apoio socioambiental do ministério público (Gapovoss) ao presidente do Ibama, Jair Schmitt. Em nota, o Ibama afirmou que conduz o licenciamento com rigor técnico, que o estudo de impacto (EIA/Rima) e o Plano de Emergência Individual contemplam todas as fases das operações e que as recomendações do MPF já estão integradas ao processo.

Manguezais, corais e correntes pouco conhecidas

Do Amapá ao Maranhão, a costa forma a maior faixa ininterrupta de manguezais do mundo, com espécies como o mangue-vermelho (Rhizophora mangle) e o mangue-seriba (Avicennia germinans). O ecossistema funciona como berçário da pesca que sustenta comunidades locais, barra a erosão e armazena grandes volumes de carbono. Entre 70 e 220 metros de profundidade fica o Grande Sistema de Recifes da Amazônia, documentado em 2016: um conjunto mesofótico raro, com mais de 40 espécies de corais e 60 de esponjas, que prospera sob a água turva despejada pelo Rio Amazonas.

"Se a gente vier a ter um problema ambiental, é muito mais difícil fazer a limpeza, porque a maior parte da nossa costa é composta por manguezais e floresta de várzea", disse à Rede Amazônica Valdenira dos Santos, doutora em Geologia e Geofísica Marinha. Segundo a pesquisadora, a costa amapaense tem características hidrodinâmicas únicas, com sensibilidade ambiental no nível máximo (índice 10), correntes que chegam a 2 metros por segundo, marés que atuam de forma perpendicular ao litoral e um vazio de dados sobre as correntes litorâneas. Ela também aponta um risco cotidiano que antecede o petróleo: navios-tanque passam todos os dias pelo Canal do Norte, entrada da hidrovia do Amazonas, e o estado não tem um plano de contingência regional. "No Amapá temos uma dependência direta da água superficial para o abastecimento das nossas cidades", afirmou.

Em nota ao G1, o Greenpeace Brasil avaliou que a viabilidade econômica "não apaga os riscos ambientais, climáticos e sociais" da Margem Equatorial. A organização lembrou que, no leilão da ANP em 2025, 19 blocos foram arrematados na Foz do Amazonas e aguardam licenciamento, enquanto outros 36 seguem em estudo, o que amplia os riscos cumulativos de operações simultâneas. Para a ONG, defender uma transição justa no cenário internacional e abrir novas frentes de exploração de combustíveis fósseis no país são caminhos incompatíveis. Enquanto a Petrobras avalia o potencial comercial da jazida, dos Santos aponta outro gargalo: o Amapá tem capacidade instalada mínima para estudos marinhos e escassez de mão de obra qualificada para produzir os dados que a costa exige.

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