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PF: ex-mulher de Cezinha teria negociado R$ 2 milhões por êxito em caso no STF

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MRPor Marina Rocha•15 de setembro de 2026•Fontes: Valor Econômico, G1

A Polícia Federal aponta que a advogada Valéria Rodrigues Linhares, ex-esposa do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), teria negociado R$ 2 milhões de honorários de êxito pela soltura de um ex-secretário de Educação preso por desvio de verbas e com processo no Supremo Tribunal Federal (STF). As mensagens constam da representação da PF que levou à operação desta segunda-feira (14) contra o parlamentar e a advogada. O ministro Flávio Dino, relator do caso, retirou o sigilo da decisão que autorizou os mandados. Segundo o documento, Cezinha teria se oferecido para despachar pessoalmente o assunto com o ministro Kassio Nunes Marques, relator do processo.

O caso do ex-secretário

O processo é a Reclamação 81.608, ajuizada por Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo (RJ). Ele foi preso no ano passado em uma operação da PF que apura desvios de R$ 112 milhões do Fundeb e do programa nacional de alimentação escolar. O primeiro contrato previsto nos diálogos pagava R$ 1 milhão ao escritório da advogada Mariângela Fialek, a Tuca, em caso de êxito na reclamação. Na sequência, Tuca propôs um aditivo de R$ 2 milhões se o ex-secretário fosse solto. O trecho tornado público por Dino não deixa claro se a contratação foi efetivada nesse valor, mas o nome de Fialek segue no processo como uma das advogadas de Denis, relata o Valor Econômico.

Os diálogos foram encontrados no celular de Tuca, apontada como uma das principais operadoras do orçamento secreto da Câmara dos Deputados durante a presidência de Arthur Lira (PP-AL). Na leitura da PF, Tuca captava as causas e redigia as peças, Valéria firmava contratos e cessões de crédito milionárias, e Cezinha mantinha contato direto com ministros. "O parlamentar não se limitava a encaminhar peças: comprometia-se a formular pedido pessoal e direto ao julgador, em favor de partes representadas por advogadas a ele ligadas por vínculo conjugal e por interesse econômico", diz a PF em trecho destacado por Dino.

"Parece-me claro que os fatos investigados podem implicar, em tese, um deputado federal que não tem habilitação para atuar como advogado, mas aparenta utilizar a ascendência de sua função parlamentar para incutir em terceiros a percepção de influência sobre magistrados de Tribunais Superiores. Friso que a percepção de elevada remuneração parece afastar a hipótese de se cuidar de mero 'ato político'", escreveu Dino.

Em 21 de agosto de 2025, depois que o gabinete de Nunes Marques respondeu por ofício a um pedido de audiência, Tuca reclamou ao deputado da dificuldade de falar com a assessoria. Cezinha respondeu "calma" e "deixa eu ir lá sentir". Sete dias depois, pediu a ela "o print do pedido da agenda novamente". Para Dino, o diálogo evidencia "o prosseguimento da gestão pessoal do pleito". Na mesma decisão, o ministro cita contratos de R$ 500 mil para a defesa da prefeita de Beberibe (CE) em caso de decisão favorável e mensagens em que o deputado fala em "André", "ministro Kassio" e "Antônio Carlos". A PF apura se são referências aos ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, do STF, e Antônio Carlos Ferreira, do STJ.

Defesas e próximos passos

Em nota, a defesa de Cezinha nega irregularidades e afirma que o deputado está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos. A defesa de Valéria disse que pedirá acesso aos autos e esclareceu que ela foi casada por 24 anos com o parlamentar, de quem é divorciada há um ano e meio; na representação da PF, ela foi apresentada como esposa. A defesa de Tuca não havia se manifestado até a publicação. Nunes Marques, em nota, afirmou que atender partes "faz parte da rotina" dos magistrados e que um juiz de seu gabinete atendeu Fialek por vídeo em 1º de agosto de 2025. Ele garantiu que decide "de forma independente e com base nas leis e na Constituição". A PF e Dino ressaltam que os ministros citados não são investigados.

A apuração é desdobramento da Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025 para apurar tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro na tramitação de processos no STF, no Superior Tribunal de Justiça e no Tribunal Superior Eleitoral. Dino segue como relator. O inquérito prossegue com a PF, e as defesas ainda vão ter acesso à íntegra dos autos antes de qualquer manifestação sobre o mérito.

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