A partir desta terça-feira, 1º de setembro, quem recebeu um Pix legítimo e depois viu o dinheiro sair da conta por um pedido falso de devolução ganhou mais tempo para reagir. O Banco Central ampliou de 30 para 80 dias o prazo para contestar uma devolução feita pelo MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Pix, quando há suspeita de que o pedido foi fraudulento. A mudança, definida pela Instrução Normativa BCB nº 766, foi explicada em reportagens da BBC News Brasil e do G1.
Para entender o que muda, vale pensar no MED como um botão de desfazer emergencial do sistema: quem caiu em um golpe, ou pagou por engano, pode acioná-lo para tentar reaver o dinheiro. Esse caminho já dava à vítima até 80 dias, contados do envio do Pix. A regra nova cria o relógio espelho: quem recebeu um pagamento de boa-fé e depois teve esse valor devolvido por uma contestação fraudulenta da outra parte agora tem 80 dias para reclamar ao banco, contados da data da devolução. Antes, eram apenas 30.
O golpe da devolução falsa
O alvo da mudança é um golpe que atinge lojistas, prestadores de serviço e pequenos empresários. O esquema costuma começar com uma mensagem dizendo que um Pix foi enviado por engano, com valor acima do devido, seguida de um pedido para devolver a diferença, muitas vezes por meio de uma nova transferência para uma chave indicada pelo suposto cliente. Enquanto o comerciante devolve, acreditando corrigir um erro honesto, a outra pessoa também aciona o MED no próprio banco, alegando ter sido vítima de fraude. Se a contestação é aceita e ainda há saldo, o golpista pode receber o valor duas vezes: uma do comerciante e outra do próprio mecanismo de proteção. O prazo maior importa porque nem todo mundo confere o extrato todo dia; segundo as reportagens, muitas vezes quem percebe o problema primeiro é um contador, um funcionário ou o próprio banco.
O rastro do dinheiro e o que ainda não sabemos
A mudança de prazo chega ao lado de uma frente mais silenciosa, o MED 2.0, em produção desde maio de 2026, que permite seguir o dinheiro por várias camadas de transferências, como quem rastreia um pacote que vai passando de mão em mão. Antes, a recuperação ficava limitada à conta original usada na fraude; se o valor já tivesse sido repassado, cresciam as chances de não sobrar saldo para devolver. Uma camada extra de detalhamento, que informaria às instituições em qual nível do rastreamento está cada transação, estava prevista para agosto e foi adiada para 26 de outubro de 2026, segundo o Banco Central.
Nenhuma das duas reportagens traz números sobre quantos comerciantes já foram vítimas desse golpe nem sobre quanto o MED 2.0 já recuperou, e um prazo maior não garante devolução: se o dinheiro já foi sacado, não há o que retornar. O incentivo do Banco Central é claro. O Pix só sustenta a economia digital brasileira enquanto as pessoas confiarem nele, e golpes que punem quem recebe pagamentos corroem exatamente essa confiança.
A recomendação prática é simples: se alguém pedir a devolução de um Pix "enviado por engano", use a função de devolução ligada à própria transação, dentro do aplicativo do banco, e evite fazer uma transferência nova para uma chave indicada pela outra pessoa. E, se o dinheiro já sumiu em uma devolução suspeita, o relógio agora corre por 80 dias.