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'Trade Flávio': apostas em ETF de Brasil em NY disparam 86% em duas semanas

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RAPor Rafael Albuquerque•11 de setembro de 2026•Fontes: Valor Investe, VEJA

Um salto de 86% em duas semanas mede a onda de apostas estrangeiras em uma alta da bolsa brasileira depois da eleição de outubro. O movimento está nas opções de compra do EWZ, principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, que saltaram de 2,8 milhões de contratos em aberto em 24 de agosto para 5,2 milhões na sexta-feira (4), segundo dados da Bloomberg compilados pelo Valor Investe. Para quem investe no Brasil, o volume importa porque parte do seu efeito pode transbordar para as ações negociadas na B3.

O salto dá para sentir no bolso: um item que custasse R$ 100 no dia 24 de agosto chegaria ao caixa por R$ 186 na sexta (4), se repetisse a variação do número de contratos. É o maior estoque dessas apostas desde 2007, ano do primeiro iPhone, segundo a Bloomberg. O movimento acompanha o aperto nas pesquisas: em 24 de agosto, quando o levantamento BTG/Nexus mostrou o presidente Lula (PT) com 46% e o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 45% em um eventual segundo turno, o EWZ tinha cerca de 2,8 milhões de calls em aberto.

A Bloomberg já havia identificado, no fim de agosto, o aumento das apostas em opções de Ibovespa e EWZ para capturar uma eventual valorização dos ativos brasileiros caso Flávio vença, relata a VEJA. O próprio fundo subiu cerca de 15% nas últimas três semanas, ao maior nível desde meados de maio, segundo a publicação financeira The Kobeissi Letter. Parte do mercado enxerga uma mudança de governo como potencialmente positiva para os papéis, diante da expectativa de maior compromisso com as contas públicas e de uma agenda mais favorável a privatizações, anota o Valor Investe.

Entenda a aposta

Entenda: o EWZ, de nome oficial iShares MSCI Brazil ETF, funciona como um "Brasil na bolsa americana", pois reúne ações de Vale, Petrobras e Itaú, entre outras, e permite ao investidor estrangeiro expor-se ao país sem precisar operar na B3. A opção de compra, a call, funciona como um sinal de reserva num imóvel: paga-se hoje uma fração do valor pelo direito de fechar negócio por um preço fixo até uma data futura. Se o preço sobe, o comprador lucra; se não sobe, perde apenas o sinal.

As maiores posições do mercado estão nos preços de exercício de US$ 43 e US$ 45, com vencimento em 20 de novembro, quase um mês depois do eventual segundo turno, marcado para 25 de outubro. Juntas, somam cerca de 1,4 milhão de contratos, segundo levantamento da CryptoBriefing citado pelo Valor Investe. Com o EWZ negociado entre US$ 38 e US$ 39, os contratos apostam em ganhos de 10% a 19% sobre a cotação, conforme o nível e o dia de referência.

Enquanto as calls quase dobraram desde o fim de agosto, as puts, opções ligadas à proteção ou à aposta em queda, ficaram estacionadas perto de 1,5 milhão de contratos, segundo a VEJA. A relação entre umas e outras caiu para perto de 0,3: em linguagem de feira, cerca de três apostas em queda para cada dez em alta. É um desequilíbrio incomum no mercado de opções do ETF brasileiro.

O que muda para o Brasil

"O que está por trás desse movimento é principalmente o posicionamento do investidor estrangeiro para o cenário eleitoral brasileiro", afirma Heitor de Nicola, especialista em renda variável da AVIN, ao Valor Investe.

"O resultado acaba acionando o que o mercado chama de 'trade eleitoral', com investidores estrangeiros montando posições no EWZ de olho em uma possível alternância de poder", diz Juliana Benvenuto, coordenadora de alocação e inteligência da Avenue.

O efeito pode chegar à B3 pelos bastidores do mercado. "Conforme essas posições são montadas e o EWZ sobe, os formadores de mercado precisam ajustar seus hedges, o que pode aumentar a demanda pelas ações brasileiras", explica Nicola. As instituições que vendem as opções compram os ativos ligados ao fundo para se proteger, e essa demanda extra reforça a alta.

A eleição não explica o movimento sozinha. O índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de divisas fortes, está abaixo dos 100 pontos, cenário que tende a favorecer mercados emergentes, e o petróleo se aproximou dos US$ 100 o barrim com as tensões no Oriente Médio, o que ajuda a Petrobras, que responde por cerca de 14% da carteira do EWZ, segundo Benvenuto.

Nem todos os 5,2 milhões de contratos representam apostas puras numa vitória de Flávio, já que opções também servem para proteção e estratégias combinadas, alerta a VEJA. Alexandre Pletes, chefe de renda variável da Faz Capital, lembra que parte dos papéis ligados ao mercado doméstico ainda negocia com desconto e que o Bank of America recomendou recentemente a compra de ações brasileiras, embora não haja consenso entre as grandes instituições internacionais. Para a Kobeissi Letter, uma recuperação do dólar seria o teste decisivo para essas apostas.

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