Num açougue do meio-oeste americano, o quilo da carne moída já custa o equivalente a 79% a mais do que custava no início de 2019, segundo dados do Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos. Foi esse aperto no bolso do consumidor, mais do que qualquer debate abstrato sobre livre comércio, que levou o presidente Donald Trump a prometer nesta quarta-feira (26) que vai revisar as regras que regem o processamento de carne bovina no país, ao mesmo tempo em que mantém a promessa de reduzir temporariamente tarifas sobre a importação do produto.
Trump fez a declaração no programa do apresentador Glenn Beck, depois que o próprio Beck sugeriu que menos burocracia do Departamento de Agricultura permitiria que pecuaristas de menor porte fizessem seu próprio abate, sem depender das grandes processadoras. 'Isso poderia ser uma ótima ideia para os pecuaristas', respondeu Trump, endurecendo o tom logo em seguida: 'Tenho ouvido apenas coisas ruins sobre isso, são quatro empresas, e é um monopólio.'
As quatro empresas às quais Trump se referiu controlam cerca de 85% de todo o processamento de carne bovina nos Estados Unidos: Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef Packing Co. Duas delas, JBS USA e National Beef, pertencem às brasileiras JBS e MBRF. No ano passado, o Departamento de Justiça americano já investigava se essas processadoras vinham inflando artificialmente os preços pagos pelo consumidor final.
O que muda para quem importa e para quem produz
A fala sobre desregulamentação se soma a uma medida que Trump já havia anunciado na semana anterior: um corte temporário de tarifas para tentar segurar os preços da carne, que estão em patamar recorde nos supermercados americanos.
- Por 90 dias, os Estados Unidos vão permitir a importação de até 300 mil toneladas de carne destinada à produção de carne moída sem tarifa fora da cota
- A expectativa de Trump é que esse volume chegue ao consumidor por um preço 25% menor do que o praticado hoje no mercado americano
- A medida busca aliviar o mercado enquanto o rebanho bovino dos Estados Unidos, reduzido nos últimos anos, se reconstitui
A reação dos próprios produtores americanos, porém, foi de resistência. A American Farm Bureau Federation, principal entidade de lobby do setor agrícola, pediu formalmente que Trump recuasse. Em carta enviada na terça-feira (25), o presidente da entidade, Zippy Duvall, afirmou que a medida 'prejudicará os pecuaristas... dos Estados Unidos, que trabalham incansavelmente para produzir alimentos para as famílias americanas'. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, disse a repórteres na Casa Branca na terça-feira que nem sequer sabia quais países estariam incluídos no anúncio de tarifa reduzida feito por Trump.
O episódio expõe uma tensão dentro da própria base política de Trump: de um lado, pecuaristas que quereriam tarifas mais altas para proteger o preço pago pelo gado nacional; de outro, consumidores pressionados por contas de supermercado cada vez mais caras, e um presidente tentando equilibrar as duas pontas sem definição clara sobre quais países serão beneficiados pela cota de importação.