public-safetyOperação contra PCC nos ônibus de SP mira ex-presidente da Câmara Milton Leite
O ônibus da Zona Sul seguiu lotado nesta quinta-feira (17), como em qualquer manhã de São Paulo. A diferença ficou longe dos pontos: a Polícia Civil e o Ministério Público deflagraram a Operação Vectura Corrupta, que apura a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) nas empresas de ônibus da capital, e um dos alvos é Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal que construiu a carreira política no Grajaú, na Zona Sul da cidade.A ação cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Segundo a Folha de S.Paulo, os mandados foram expedidos pela 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do estado e pela Vara Estadual de Garantias de Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Direitos. A operação é conduzida pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Gaeco, o braço do Ministério Público no combate ao crime organizado.Contra Leite, de 70 anos, o Tribunal de Justiça autorizou prisão temporária de 30 dias. Ele não foi encontrado quando policiais foram à casa dele; segundo apurou a GloboNews, diante do que foi visto no imóvel, a Polícia Civil passou a considerá-lo foragido. Em nota, o ex-vereador negou. "Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações", declarou. Segundo o G1, uma funcionária da casa relatou que ele saiu na noite de quarta-feira (16) para um compromisso de campanha.Leite deixou a Câmara em 2024, depois de sete mandatos e quatro passagens pela presidência da Casa. Foi o segundo vereador mais votado da cidade em 2020, com 132.716 votos, e hoje preside o União Brasil na capital e a federação estadual União Progressista, formada com o PP. Ao anunciar a aposentadoria da vida pública, disse que pretendia "ir pescar, cuidar da saúde, da família e dos negócios".O que a investigação apontaPara os investigadores, a facção controla direta ou indiretamente parte das empresas que colocam ônibus na rua todos os dias. São 12 companhias citadas: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego, Allianz, Transunião, Qualibus, Norte Bus e Spencer. Em nota, o Ministério Público resume a suspeita:"Foram identificadas pelo menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros em operação na cidade de São Paulo que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC, parte das quais já foram objeto de investigações anteriores por parte da Polícia Civil do Estado de São Paulo e do Ministério Público, inclusive com denúncias já ofertadas."A Transwolff, uma das citadas, já tinha sido alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em 2024, quando seu então presidente, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, foi preso sob suspeita de vínculos com a facção. Segundo o G1, o pedido que embasou a nova operação cita declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais Leite seria o dono de fato da Transwolff. A apuração da GloboNews indica ainda que decisões estratégicas das empresas suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política do ex-vereador.Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, a agência municipal que administra o transporte por ônibus na capital, e Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e tinha candidatura a deputado estadual com registro cassado. Segundo a investigação, Levi mantinha encontros periódicos com José Daniel Satilite, apontado como um dos personagens centrais do esquema, para tratar de interesses da facção em empresas de transporte, e a campanha de Danilo teria sido financiada pela organização criminosa. A Vectura Corrupta é desdobramento da Operação Decúrio, de agosto de 2024, que identificou a rede de comunicação do PCC, com os núcleos Sintonia Restrita e Sintonia dos Gravatas, este último formado por advogados, e um projeto de infiltração do crime organizado nas eleições municipais daquele ano. Os investigadores apuram ainda o financiamento de campanhas pela facção na disputa atual.O que muda, para quemMilton Leite: alvo de prisão temporária de 30 dias; a Polícia Civil o considera foragido; ele diz estar viajando e que se apresentará em até 24 horas.Outros presos: o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e o ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande Danilo Marco Morgado Silva.Onde: sete cidades, da capital ao litoral (São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão).Empresas de ônibus: 12 companhias citadas na investigação; até a publicação, não houve anúncio de suspensão de linhas.
TMTiago Moreira