O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (28) que prepara medidas para permitir que agricultores e pecuaristas americanos processem a própria produção, em uma nova ofensiva contra a concentração do setor de carnes do país, segundo a Folha de S.Paulo. A iniciativa pode atingir duas companhias ligadas ao Brasil: a JBS e a National Beef, controlada pela MBRF, empresa formada pela fusão entre Marfrig e BRF.
O anúncio veio dois dias depois de Trump afirmar, em um podcast, que existe um monopólio no processamento de carne bovina nos Estados Unidos, e cerca de duas semanas após seu conselheiro comercial, Peter Navarro, acusar quatro grandes empresas do setor de formar um cartel. Nesta sexta, sem citar as companhias pelo nome, o presidente escreveu: "Há, essencialmente, quatro delas, um número nada competitivo, e elas tornam horrível a vida dos nossos maravilhosos agricultores e pecuaristas".
As quatro maiores processadoras de carne bovina dos EUA são JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef e, juntas, controlam cerca de 85% do mercado. Para entender por que isso incomoda produtores e consumidores, pense em quase todo o gado americano precisando passar por uma de quatro portas antes de virar hambúrguer. Quem controla a porta define o preço pago ao pecuarista de um lado e o preço cobrado no supermercado do outro, e fica com a diferença.
O pano de fundo é a alta de preços. Um quilo de carne moída chegou a US$ 6,76 (R$ 35,10) em janeiro deste ano, alta de 18% em relação ao ano anterior, de acordo com dados do Federal Reserve citados pela Folha. Pela inflação oficial, a carne subiu 9,4% em 12 meses até julho, segundo o Departamento do Trabalho. Como apontou o site AgFeed, a promessa de Trump chega em ano de eleições de novembro, com a inflação dos alimentos pressionando o bolso do eleitor.
O que ainda não sabemos
Trump não detalhou quais regras pretende alterar. Disse apenas que parte significativa da propriedade das grandes processadoras está fora dos Estados Unidos e que autorizou a preparação de documentos jurídicos para dar aos produtores "o direito de processar seus próprios alimentos". A Gazeta do Povo já havia noticiado, em maio, que o governo ampliou uma investigação antitruste contra os quatro maiores frigoríficos do país, mas não há informação pública sobre o estágio ou as conclusões desse trabalho. A Folha procurou JBS e MBRF pela assessoria de imprensa e não informou se houve resposta.
Para quem acompanha o setor, os pontos de atenção são três: o texto da ordem que Trump prometeu, o andamento da investigação antitruste do Departamento de Justiça e a reação das ações de JBS e MBRF. Se a medida sair do papel, o primeiro sinal prático será a abertura de espaço para que pecuaristas processem e vendam a própria carne, um negócio hoje concentrado nas quatro gigantes.